Terça-feira, 29.09.09

 O amor é um risco, o sexo não

 

Na segunda metade do século xix, a sexualidade era escondida, proibida, recalcada. Ao observar o arco histérico dos pacientes de Charcot, o jovem Freud achou logo que tinha origem num desejo sexual que, por não poder ser satisfeito, se exprimia no corpo. Contudo, era possível falar e escrever de amor sem limites. Existe uma continuidade ideal entre livros como "Anna Karenina", "O Monte dos Vendavais" e filmes como "Love is a Many Splendored Thing" e "Um Homem e Uma Mulher". Hoje em dia são cada menos os romances e os filmes cujo tema é um amor apaixonado. Em compensação, o erotismo e o sexo sem amor estão cada vez mais presentes. Na vida real, há jovens que aos trinta anos já tiveram experiências sexuais que as mães nem teriam imaginado, mas ainda não viveram um grande amor. Não encontraram a pessoa certa, ou ficaram inibidas. É como se houvesse uma inversão do binómio sexualidade-amor. 

A sexualidade começou por ser perigosa (pelo risco de uma maternidade indesejada), pelo que era controlada e reprimida. Actualmente, o maior perigo está em abandonarmo-nos ao amor, pelo sofrimento que ele pode causar, sobretudo quando a sexualidade é livre e a fidelidade deixou de ser considerada uma virtude e um dever essencial. A psicanálise diz-nos que, quando um impulso é reprimido, se manifesta por sintomas de substituição. O arco histérico era o substituto de um desejo sexual proibido.

 

 

E haverá substitutos do amor apaixonado reprimido? No livro "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, que retrata um mundo em que tudo é planeado e não há enamoramento, as necessidades inconscientes eram satisfeitas com uma "injecção de paixão violenta".

 

 

No mundo de hoje, há alguma coisa que corresponda à "injecção de paixão violenta"? Penso que sim: a procura da excitação paroxística da discoteca, a falta de regras das raves, a anulação da pessoa nas festas e orgias e, de forma mais geral, o estado induzido pelas drogas. Depois de dissociado do amor, o sexo torna- -se fácil, enquanto amor se torna difícil e é substituído por estados paroxísticos artificiais. Há mesmo quem preveja, como Attali, o desaparecimento do amor exclusivo. Alguns neuropsicológos procuram fármacos para "acender" e "apagar" o amor. Na minha opinião, são vias que empobrecem a humanidade. O amor é um risco, mas quem não o corre não vive. 

Sociólogo, escritor e jornalista

 

Via ionline



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Terça-feira, 17.03.09
O valor da partilha
 
A Partilha é um conceito que se aprende desde cedo, ou que assim deveria ser. Vai ganhando contornos diferentes e mais musculados à medida que nos vamos desenvolvendo e que as nossas experiências transformam as coisas que possuimos para partilharmos numa objecto a uma escala mais macro-existencial. O conceito de partilha e o de felicidade esbarram-se de forma clara e imperetrível . Sentimo-nos mais felizes quando partilhamos. O racio do que damos e do que recebemos é superior ao nivel de satisfação que revelamos quando possuimos algo que consideramos cumulativamente nosso. Porque nada é cumulativamente nosso e tudo o que há no mundo ou é partilhado e sentido como detenção universal e comunitária, ou embarca-se em mares fundos e inóspitos e tudo perde o sentido. A experiência de partilhar acaba por desmultiplicar o que damos, mas por potenciar o que recebemos. Partilhem nem que seja seguindo uma linha de pensamento pseudo-capitalista, de receberem algo em troca: partilhem sorrisos, bom-disposição, pensamentos, meios, fins, projectos, sonhos, amor. O mundo pode ser um lugar melhor.
 
 
Via Wake up Little Susie

 


publicado por olhar para o mundo às 08:48 | link do post | comentar | ver comentários (3)

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