Segunda-feira, 29.11.10

Sergio Godinho, Rascunhos

 

Aqui a lição é dada pelo mestre. Sérgio Godinho tem o génio de transformar palavras em canções e sobe amanhã ao palco da Culturgest, em Lisboa, para explicar como se faz. O cantautor apresenta "Final de Rascunho", uma série de concertos onde vai desvendar parte do seu universo criativo. As múltiplas facetas, como a poesia e a spoken word, estarão em evidência, num espectáculo que se quer intimista. E em boa companhia: a acompanhar a banda estará Bernardo Sassetti e o violoncelista António Serginho

O espectáculo surgiu de forma natural. Há muito que as datas dos concertos na Culturgest (sexta, sábado e domingo) estavam marcadas. "Mas ainda sem um programa definido", conta Sérgio Godinho ao i, a partir do estúdio onde está a preparar o concerto. Inicialmente previsto para o ano de 2010, o seu novo disco acabou por não sair. Mas foi dos seus preparativos que nasceu a ideia de levar para o palco "um espectáculo encenado e espontâneo, construído e imprevisível". Uma decisão inédita, quase uma introdução ao novo registo.

"Enquanto as canções foram surgindo, achei que seria interessante partilhá-las sem rede, com o público. No fundo é isso que este espectáculo representa: resulta de um work in progress e pretende ao mesmo tempo mostrar como se foram desenvolvendo as canções". Mas sempre "de modo muito informal", sem revelar grandes detalhes.

O autor é muito ciente desse trabalho solitário, dos primeiros esboços feitos em casa ou num "lugar qualquer", cuja natureza raramente se revela. "A primeira partilha é com nós mesmos e com interlocutores imaginários. Quando se compõe, projecta-se sempre para os outros. Pode ser muito romântico dizer que não, mas não faz sentido nenhum. Mesmo os que dizem furiosamente que escrevem para si, fazem-no sempre para alguém." 

Além de deambular por um conjunto de novas canções, "Final de Rascunho" inclui um alinhamento "mais vasto". "Vamos também tocar coisas mais antigas, todas elas cruzam esta mesma linguagem." Em palco, Sérgio Godinho promete ainda evidenciar uma das facetas mais apreciadas: a escrita. Serão lidos poemas do seu livro de poesia, "Sangue por Um Fio", em jeito de spoken word, acompanhados pela banda e pelos músicos convidados, que têm papel activo não só no concerto mas também no disco. 

"Sempre pensei que este próximo disco teria outras pessoas para além da nossa banda. Foi por isso que convidei o Bernardo Sassetti e o António Serginho. Entram na dupla condição de instrumentistas em palco, mas também para conceber arranjos." Sérgio Godinho confessa que há muito tempo queria trabalhar com Sassetti e o resultado desse desejo ganha agora forma num tema inédito. Chama-se "Dias Consecutivos" e é uma "espécie de valsa macabra."

 

Via Ionline



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Sexta-feira, 08.10.10

Letra
Isto é como tudo
não há-de ser nada 
a minha namorada 
é tudo que eu queira
mas vive para lá da fronteira

Separam-nos cordas
separam-nos credos
e creio que medos
e creio que leis
nos colam à pele papéis

Tratados, acordos
são pântanos, lodos

Pisemos a pista 
é bom que se insista 
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo 
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó 
dançar como amigo só

Por ódio passado
que seja maldito
amor favorito
não tem importância
se for é de circunstância

Separam-nos crimes 
separam-nos cores
a noite é de horrores
quem disse que é lindo
o sol-posto de um dia findo

Sozinho adormeço
E em teu corpo apareço

Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo 
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó 
dançar como amigo só

Em passos tão simples 
trocar endereços
num mundo de acessos
ar onde sufocas
lugar de supostas trocas

Separam-nos facas
separam-nos fatwas
pai-nossos e datas 
e excomunhões
acondicionando paixões 

Acenda-se a tua
luz na minha rua

Pisemos a pista 
é bom que se insista 
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo 
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó 
dançar como amigo só



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Sexta-feira, 13.08.10

Letra
Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos 
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos

E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e eu mal gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa

E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade

Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo

Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?



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Sexta-feira, 30.04.10

Letra

 

Unamo-nos 
Nós somos os famosos anónimos
Mesmo assim já comprimos os mínimos
Somos todos únicos
Que mais vão querer de nós
P'ra provar quem vai à frente
Ou fica atrás

Se é por
Ir estabelecer um novo record
Cumprimos o guinnes ao preço que for
E fica o assunto num lugar
E sem espumantes, às vezes dá p'ro banquete
Ou apenas sandes

Sempre
Complicamos a coisa mais simples
E simplificamos a complicada
Sai em rajada o tiro pela colatra
Às vezes mata, às vezes ressureição
Foi de raspão

(Só neste país...)

Só neste país
É que se diz:
Só neste país
Só neste país 
Só neste país
Só neste país
Só neste país

São muitos séculos em mor-premonição
A transitar entre o granizo e a combustão
E um qualquer hino para qualquer situação
Pessimista, optmista...

(e vai abaixo e vai acima
pessimista, optimista...)
...e agora a rima

Portugal é nosso p'ro bem e p'ro mal
E o mal que está bem
E o bem que está mal
E o bem que está bem

Juro
P'lo fado
P'lo baile e p'lo Kuduro
Que este país ainda tem futuro
É verde e maduro 
Como a fruta, às vezes brote
Às vezes consternação
Secou no chão

Por isso unamo-nos
Nós somos o famosos anónimos
Mesmo assim já cumprimos os mínimos
Somos todos únicos 
Que mais vão querer de nós
P'ra provar quem vai à frente 
Ou fica atrás...

(Só neste país)

Só neste país 
É que se diz:
Só neste país
(...)

Portugal é nosso p'ro bem e p'ro mal



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Quinta-feira, 29.04.10

Letra
Um Tempo Que Passou


Vou 
uma vez mais 
correr atrás 
de todo o meu tempo perdido 
quem sabe, está guardado 
num relógio escondido por quem 
nem avalia o tempo que tem 

Ou 
alguém o achou 
examinou 
julgou um tempo sem sentido 
quem sabe, foi usado 
e está arrependido o ladrão 
que andou vivendo com seu quinhão 

Ou dorme num arquivo 
um pedaço de vida 
a vida, a vida que eu não gozei 
eu não respirei 
eu não existia 

Mas eu estava vivo 
vivo, vivo 
o tempo escorreu 
o tempo era meu 
e apenas queria 
haver de volta 
cada minuto que passou sem mim 

Sim 
encontro enfim 
iguais a mim 
outras pessoas aturdidas 
as horas dessas vidas que estão 
talvez postas em grande leilão 

São 
mais de um milhão 
uma legião 
um carrilhão de horas vivas 
quem sabe, dobram juntas 
as dores colectivas, quiçá 
no canto mais pungente que há 

ou dançam numa torre 
as nossas sobrevidas 
vidas, vidas 
a se encantar 
a se combinar 
em vidas futuras 

Enquanto o vinho corre, corre, corre 
morrem de rir 
mas morrem de rir 
naquelas alturas 
pois sabem que não volta jamais 
um tempo que passou



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Quarta-feira, 28.04.10

 

Letra

 

Dois três zero, guarda chama
já não tarda
hão-de revirar a cama
hão-de revistar a cela
olhar, espiolhar, esquadrinhar
verificar
barra a barra, se a janela…

 

Na prisão
Na prisão
poucos são
os teus pertences
mas ninguém sabe
onde escondes
o que de secreto penses

 

Na prisão
Na prisão
o portão
abre ao contrário
e é na culpa
que defrontas
o maior adversário

 

Na prisão
Na prisão
a lição
serve p´ra vida
nunca pouses
onde sempre
podes andar de fugida

 

Na prisão
Na prisão
muitos são
os preventivos
só na sentença
contarás ao certo
os dias já perdidos

 

Hoje é dia de visita
rapariga
pinta a boca e ata a fita
Hoje é dia de visita
meu rapaz
põe a camisa bonita
Sou p´ra ti, aqui me tens
p´ra semana, vens, não vens?
Vai tocar a campaínha
e a tua mão ainda na minha
e em surdina já te gritas:
Porque há horas tão velozes
e semanas infinitas ?

 

Na prisão
Na prisão
um irmão
é precioso
pouco interessa
que a lei justa
veja nele um criminoso

 

Na prisão
Na prisão
dentro do pão
dois pacotes
pode ser que ao
consumi-los
muitas raivas tu enxotes

 

Na prisão
Na prisão
o pulmão
respira à toa
não se entende
se morrer
é quase nunca coisa boa

 

Na prisão
Na prisão
O tesão
é cofre-forte
que ora solta
a semente
para a vida
ou para a morte

Hoje é dia de visita
rapariga
pinta a boca e ata a fita
Hoje é dia de visita
meu rapaz
põe a camisa bonita
Sou p´ra ti, aqui me tens
p´ra semana, vens, não vens?
Vai tocar a campaínha
e a tua mão ainda na minha
e em surdina já te gritas:
Porque há horas tão velozes
e semanas infinitas?

 

Na prisão
Na prisão
O trovão
não relampeja
mas ao menos
nessa espera
Nunca abrigo se deseja

 

Na prisão
Na prisão
a televisão
nunca tem grades
passa crimes
e delitos
que vão ser impunidades

Na prisão
Na prisão
com razão
se tenta a fuga
mas quando avanças
marcas passo
impaciente tartaruga


Na prisão
Na prisão
a escuridão
nunca nos cega
vemos túneis
que se acendem
quando neles se escorrega

Hoje é dia de visita
rapariga
pinta a boca e ata a fita
Hoje é dia de visita
meu rapaz
põe a camisa bonita
Sou p´ra ti, aqui me tens
p´ra semana, vens, não vens?
Vai tocar a campaínha
e a tua mão ainda na minha
e em surdina já te gritas:
Porque há horas tão velozes
e semanas infinitas ?

 

Na prisão
Na prisão
o portão
abre p´ra fora
e a liberdade
é de repente
o que ao longe te apavora

E da prisão
da prisão
tens na mão
a tatuagem
que perfura
os caminhos
em quadrado da viagem

 

 



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Sexta-feira, 12.03.10

 

Letra

 

Dás-me a vontade

Dás-me o ouvido

Pra arrancar músicas ao ar

 

Na tempestade

Madeira e vidro

Saberão como não quebrar

 

As chamas trinco

No gelo ardido

São formas muitas de te amar

Depois dos cinco.

Sexto sentido

Saberá tudo entrelaçar

 

É por tudo o que em nós corre

Que se vive e que se morre

 

Meu sangue sinto

Que à terra desce

E no teu corpo o seu lugar

 

Dentro do instinto

Tudo o que cresce

É forma boa de se amar

 

É por tudo o que em nós corre

Que se vive e que se morre

 

Eu toco, eu fujo, eu volto, eu passo

Giro nos meus seis sentidos

Eu desço à terra e subo ao espaço

Agarrado aos seis sentidos 

 



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Terça-feira, 15.12.09

 

 

Letra

Eu vi quatro quadras soltas
à solta lá numa herdade
amarrei-as com uma corda
e carreguei-as para a cidade

Cheguei com elas a um largo
e logo ao largo se puseram
foram ter com a família
e com os amigos que ainda o eram

Viram fados, viram viras
viram canções de revolta
e encontraram bons amigos
em mais que uma quadra solta

Uma viu um livro chamado
"Este livro que vos deixo"
reviu velhas amizades
eram quadras do Aleixo:

(Ó i ó ai) Há já menos quem se encolha
(Ó i ó ai) Muita gente fala e canta
(Ó i ó ai) Já se vai soltando a rolha
Que nos tapava a garganta

Ora bem, tinha marcado
encontro com as quadras soltas
pois sim, fiquei pendurado
como um tolo ali às voltas

Chegou uma e disse: Andei
a cumprimentar parentes
e eu aqui a enxotar moscas
vocês são mesmo indecentes

Respondeu-me: ó patrãozinho
desculpe lá essa seca
estive a beber um copito
com uma quadra do Zeca:

(Ó i ó ai) Disse-me um dia um careca
(Ó i ó ai) Quando uma cobra tem sede
(Ó i ó ai) Corta-lhe logo a cabeça
Encosta-a bem à parede

Das restantes quadras soltas
não tinha sequer noticia
dirigi-me a uma esquadra
e descrevi-as a um policia

Respondeu-me: Com efeito
nós temos aqui retida
uma quadra sem papéis
que encontramos na má vida

Diz que é uma quadra oral
sem identificação
e que uma quadra popular
não precisa de cartão

Se diz que pertence ao povo
o povo que venha cá
que eu quero ver a licença
o registo e o alvará:

(Ó i ó ai)Quando se embebeda o pobre
(Ó i ó ai) Dizem, olha o borrachão
(Ó i ó ai) Quando se emborracha o rico
Acham graça ao figurão

Fui com a quadra popular
à procura da restante
quando o policia de longe
disse: venha aqui um instante

Temos aqui uma outra
não sei se você conhece
desrespeita autoridades
e diz o que lhe apetece

Tem uma rima forçada
e palavras estrangeiras
e semeia a confusão
entre as outras prisioneiras

Se for sua, leve-a já
que é pior que erva daninha
olhe bem para ela: É sua?
olhei bem para ela: É minha!

(Ó i ó ai) Nós queremos é justiça
(Ó i ó ai) E dinheiro para o bife
(Ó i ó ai) E não esta cóboiada
Em que tudo é tudo do xerife

 



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Domingo, 16.08.09



Letra

 

Numa rua de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis d'ouro a um tostão
enriquece o charlatão


No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f'rido
e outro em França anda perdido

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga

No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-s'em quatro zonas
instalados em poltronas

Pr'á rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca d'alguns patacos

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Entre a rua e o país
vai o passo dum anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

É entrar, senhorias
É entrar, senhorias
É entrar, senho...



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Sábado, 15.08.09



Letra

 

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"



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Sexta-feira, 14.08.09



Letra

 

Ia eu pelo concelho de Caminha
quando vi sentada ao sol uma velhinha
curioso, uma conversa entabulei
como se diz nuns romances que eu cá sei

Chamo-me Adozinha, disse, e tenho já
os meus 84 anos, feitos há
mês e meio, se a memória não me falha
mas inda vou durar uns anos, Deus me valha

Com esta da austeridade, meu senhor
nem sequer da para ir desta pra melhor
os funerais estão por um preço do outro mundo
dá pra desistir de ser um moribundo

Rabugenta, eu? Não senhor
eu hei-de ir desta pra melhor
mas falo pelos que cá deixo
não é por mim que eu me queixo

Ó Felisbela, ó Felismina
ó Adelaide, ó Amelinha
ó Maria Berta, ó Zulmirinha
vamos cantar o coro das velhas?

Cá se vai andando
c'o a cabeça entre as orelhas

Não sei ler nem escrever mas não me ralo
alguns há que até a caneta lhes faz calo
é só assinar despachos e decretos
p'ra nos dar a ler a nós, analfabetos

E saúde, eu tenho p'ra dar e vender
não preciso de um ministro para ter
tudo o que ele anda a ver se me pode dar
pode ir ele p'ro hospital em meu lugar

E quanto a apertar cinto, sinto muito
Filosofem os que sabem lá do assunto
Mas com esta cinturinha tão delgada
Inda posso ser de muitos namorada

Rabugenta, eu? Não senhor
eu hei-de ir desta pra melhor
mas falo pelos que cá deixo
não é por mim que eu me queixo

Ó Felisbela, ó Felismina
ó Adelaide, ó Amelinha
ó Maria Berta, ó Zulmirinha
vamos cantar o coro das velhas?

Cá se vai andando
c'o a cabeça entre as orelhas

E se a morte mafarrica, mesmo assim
me apartar das outras velhas, logo a mim
digo ao diabo, não te temo, ó camafeu
conheci piores infernos do que o teu

Rabugenta, eu? Não senhor
eu hei-de ir desta pra melhor
mas falo pelos que cá deixo
não é por mim que eu me queixo

Ó Felisbela, ó Felismina
ó Adelaide, ó Amelinha
ó Maria Berta, ó Zulmirinha
vamos cantar o coro das velhas?



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Quinta-feira, 13.08.09


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