Quarta-feira, 15.09.10

Se o senhor Presidente não se incomodasse eu gostaria de lhe dirigir umas palavras, adiantando já que serão palavras educadíssimas, mesmo quando me limitar a narrar factos, o que às vezes pode traduzir-se numa linguagem dura, vá, directa, sim, mas no meu dicionário isso nada tem de pouco educado.

Por outro lado, gostava de brindar o senhor Presidente com a alegria de se saber um político, imagine, e por isso sujeito a elogios e a críticas, o que me leva a requerer que não tome qualquer crítica minha como falta de chá, ódio ou mesmo resultado de um problema psicológico.

Eu percebo que seja mais agradável assistir todos os dias aos ataques feitos a essa coisa que se chama "o outro", mas, imagine, senhor Presidente, que estando V. Exªa a ocupar esse cargo, eleito pelo povo, sem o meu voto, é certo, mas ainda assim jurando defender a Constituição, que é de todos e a todos representando, eu pedia-lhe que pusesse os pés na terra e que descobrisse a alegria de pertencer ao mundo dos vivos, no seu caso particular, ao mundo dos titulares de cargos políticos, no seu caso particular logo o de PR, ora já viu que maçada nós que o elegemos termos o direito de nos expressarmos acerca da forma como exerce o seu mandato?

É isto, é esta coisa maçadora para si, chama-se democracia. Eu reparei, quando promulgou a lei que consagrou o CPMS, por exemplo, que estava muito desagradado com o facto de a maioria parlamentar, que tinha posto a dita lei no respectivo programa de governo, não ter aprovado a proposta da oposição, sim, reparei, tomei nota da angústia que a democracia causa no senhor Presidente. De resto, recordo-me de si quando era PM, quando não se enganava ou não tinha dúvidas ou lá o que era. Recordo-me de como achava dispensável ir à AR, aquele órgão muito chato, eleito por todos nós, que tem representadas as principais correntes políticas presentes na sociedade. Era fastidioso para si, claro, estava-se tão bem em São Bento, a decidir tudo por decreto, para quê ir aturar vozes, plural, vozes, que cansativo, e São Bento tão agradável, já outro senhor que percebia de finanças não diria melhor.

Agora teve o senhor Presidente de aturar uma cartaescrita a pensar nas presidenciais onde a histérica da Deputada europeia sem educação Edite Estrela se atreve, imagine-se, a tecer considerações políticas sobre si que é um político, ups, isso, um político. Que deu à senhora? Então veio dizer que o Rei Absoluto, perdão, que o Presidente "nunca perdeu uma oportunidade de se demarcar do governo, de dificultar, aberta ou dissimuladamente, a sua acção, e até de obstruir deliberadamente muitas medidas constantes do programa eleitoral sufragado pelo povo português"? Mais disse que "durante o seu mandato, foram frequentes as quezílias, intrigas e até campanhas, dirigidas por assessores da sua confiança, destinadas a atingir a idoneidade do governo e do primeiro-ministro"? Olha! Exprimiu uma opinião política sobre a actuação de Vexa!

Claro que as pessoas queriam era saber o que teria o PR a dizer sobre isto, mas o PR não comenta porque diz ser bem educado e diz que respeita os outros.

O Senhor Presidente desculpe, mas eu estou assim que a modos que baralhada. Se eu lhe explicar que o seu mandato tem sido mau a todos os níveis e alguém lhe pedir para responder às minhas críticas, vou ouvir de si que não responde porque é bem educadinho? Mas pode explicar assim às pessoas menos letradas que Vexa. em que é que a Drª Edita Estrela foi mal educada ou em que é que o Senhor seria ordinário se soubesse, democraticamente, responder a uma crítica política?Ou o seu problema é que de facto não sabe responder, que é como quem diz não sabe viver em democracia, como tão bem mostrava nos seus tempos de maioria absoluta?

Quer que lhe diga? O senhor obstaculizou o Governo sempre que foi possível, sim: o senhor inventou o drama do Estatuto dos Açores para criar um facto político, quando aquilo era uma questão de interpretação jurídica simples, arrastando o drama em vetos políticos por razões jurídicas, em fraude à constituição, e no final nem foi o Senhor que enviou o diploma para o TC. Por quê? Porque se estava nas tintas. Queria era a barulheira que já estava criada. ; o senhor é campeão dos pedidos de fiscalização de constitucionalidade, o que pode fazer, sim, mas eu posso analisar o feito, e perde os processos que nem um maluco, experimente olhar para o mandato do Dr. Sampaio e aprenda, pode ser?; o senhor é responsável pela inventona de Belém, eu tive vergonha da sua declaração ao país, das mudanças sem responsabilidades nos seus assessores, o senhor tinha um projecto para acabar com o Executivo como jamais vi; o senhor dirige-se directamente às pessoas como um demagogo, esquecendo a AR, órgão ao qual se deve dirigir, mas prefere essa relação directa com o eleitorado por causa da dramatização, da criação de um poder pessoal e que sobressaia; o Senhor tem uma péssima relação com a verdade e com a coerência, o caso da inventona de Belém é paradigmático, mas quando promulga uma lei também se vê a sua horrível pele oleada; o Senhor atreve-se a estar calado sobre o CPMS durante a sua campanha, quando a sua posição lhe foi perguntada, e no momento da promulgação faz-se de virgem ofendida e lamenta não terem sido aprovadas soluções como a francesa - que tem uma lei de facto igual à que o senhor tinha vetado no ano anterior - e outras que prevêem a adopção; o Senhor faz o pedido de fiscalização da LCPMS mais cobarde da história, deixando de lado o artigo da adopção.

Eu podia continuar, porque o Senhor merece de mim uma convicção profunda: o Senhor representa tudo aquilo que nunca terá o meu voto. Fico por aqui. Sou muito educada.

 

Via Pegadas



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Sexta-feira, 02.07.10

A posição da Igreja em relação à homossexualidade e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser alvo de reflexão tanto por parte da instituição católica como por parte da sociedade, defende Clarisse Canha.

 

A discriminação, o preconceito e a homofobia podem derivar de uma ideia mal formada, isto é, os homossexuais e as lésbicas são pessoas como todas as outras...
Posso falar a partir da minha experiência e da UMAR-Açores, principalmente dos contactos que estabelecemos nas acções de formação junto de jovens e mulheres. Há, por exemplo, jovens que questionam até que ponto a aparência de uma pessoa pode revelar se é ou não heterossexual. O que nós transmitimos é que não se pode definir nem julgar uma pessoa pela aparência. O facto de ser ou não heterossexual tem a ver com a escolha, a orientação, o gosto, a atracção e não com melhores ou piores qualidades. Com os/as jovens tem sido mais fácil desconstruir preconceitos. Lembro, num debate que promovemos com mulheres, que uma delas colocou a questão num outro campo, que passa por uma homo- fobia mais atroz, e que se prende com o facto de um homossexual ter arranjado um compa- nheiro do mesmo sexo sendo que o mesmo foi penalizado pela censura social. Essa mulher disse que iria compreender esta situação e esta declaração teve um eco positivo no grupo. Experiências desse género levam-me a crer que estamos perante uma evolução, mas ainda no patamar do conhecer directo e isso às vezes é traiçoeiro.

 

As pessoas podem até reconhecer o direito à identidade e orientação sexual, mas num contacto directo a reacção poderá não ser a mesma...
Lembro-me por exemplo de outras situações concretas de jovens, há 20 anos atrás, que assumiram uma relação homossexual e cujos pais os colocaram de parte. Passado algum tempo, o pai e a mãe vieram a compreender, mas sofreram muito e penso que esta é também uma questão de fundo. A homofobia é algo que deve ser combatido porque, para além de tudo, faz sofrer as pessoas. A primeira pessoa a sofrer é a própria vítima da homofobia. Sei que, por exemplo, em determinados países há experiências de trabalho social no sentido de conhecer o impacto da homofobia na saúde das pessoas. E às vezes esse impacto leva a que muitos recalquem sentimentos. E pode até não se tratar apenas da homossexualidade, mas também a forma de vestir ou de andar. Parece-me, por isso, que a desconstrução do preconceito é muito importante.

 

Numa outra perspectiva, há pessoas que se deslocam à UMAR-Açores para pedir algum tipo de aconselhamento?
Já aconteceram alguns casos, nomeadamente duas pessoas do mesmo sexo que queriam fazer uma vida comum e que esbarram em problemas legais. Neste aspecto, a alteração da lei foi um grande avanço. O facto de ter sido legalizado o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo tem, a meu ver, dois efeitos: o efeito legal de direito e o efeito de discussão pública. Este último esbarra com muito preconceito e muita homofobia, mas faz parte do processo e por muito que possa desagradar a quem gosta ou a quem não gosta de discutir, faz parte desta caminhada. Aquando da visita do Santo Padre a Portugal, ficou a mensagem de que a Igreja é contra duas questões: a despenalização do aborto e o casamento entre as pessoas do mesmo sexo, duas conquistas recentes de Portugal. E sobre isso também deve haver debate público porque as pessoas, no campo da sua religião, continuam a ser pessoas que lidam com a vida, com a realidade, a sua própria realidade. É importante que a sociedade discuta essa atitude ou orientação da Igreja, confrontando-a com a vida e com a realidade. A experiência diz-nos que a Igreja não tem, muitas vezes, ido à frente dos avanços da sociedade. Tem ido atrás e é pena porque isso tem prejudicado a sociedade. Espero que em relação a esta área dos direitos e identidade que a Igreja venha a reflectir em breve.


ISABEL ALVES COELHO
isabelcoelho77@hotmail.com

 

Via Expresso da Nove




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Sábado, 26.06.10

Ao faltar ao funeral de José Saramago, o Presidente da República mostrou que põe o cidadão Aníbal e o político Cavaco acima do cargo que ocupa. Mostrou ser demasiado pequeno para representar o País.

 

José Saramago e Cavaco Silva nunca se admiraram um ao outro. Por causa de um obscuro subsecretário de Estado de Cavaco o escritor terá mesmo abandonado o País. Por isso, se Aníbal Cavaco Silva tivesse comparecido no funeral de José Saramago muitos diriam que se tratava de hipocrisia. Mas, ainda assim, o Presidente da República tinha de ir e aguentar com dignidade essa acusação. Porque as críticas que lhe fariam, pondo em causa o homem, deixariam intacta a instituição que ele representa. Porque quem lá estaria não seria Cavaco SilvaSeria o Presidente da República portuguesa.

A justificação que Cavaco Silva apresentou - não era amigo ou conhecido do escritor - e a verdadeira razão porque esteve ausente - não suporta prestar homenagem a alguém que o enfrentou - são absurdas mas reveladoras. Absurdas porque as funções de representação de um Presidente não são para os amigos. Reveladoras porque mostram que temos como Presidente da República alguém que não consegue ser maior do que o cidadão Aníbal e do que o político Cavaco.

É indiferente se o cidadão Aníbal alguma vez conheceu ou foi amigo de José Saramago. É irrelevante o que o político Cavaco sente em relação ao escritor Saramago. Sendo um momento importante para o Estado português, ninguém faria questão que lá estivessem o Aníbal ou o Cavaco. Mas o Presidente da República, esse, nunca poderia faltar à última homenagem ao único prémio Nobel da Literatura de língua portuguesa. A um dos mais importantes escritores do século XX. Àquele que, com Fernando Pessoa, atingiu maior notoriedade internacional. É incoerente decretar dois dias de luto nacional e depois estar ausente da cerimónia oficial.

Cavaco Silva mostrou este fim-de-semana que, mesmo no cargo que ocupa, não consegue ser mais do que ele próprio. Não consegue representar o País. E um Presidente que não está acima da sua pequenez, que não percebe a grandeza de um cargo que o transcende, é e será sempre um mau Presidente.

Dito tudo isto, este episódio infeliz com Cavaco Silva, a ignorância de Sousa Lara, a triste reacção do jornal oficial do Vaticano à morte de um grande escritor e outras tantas irrelevâncias não merecerão uma nota de rodapé na História. Já o "Memorial do Convento", o "Levantados do Chão", o "Ano da Morte de Ricardo Reis" ou a "História do Cerco de Lisboa" ninguém tira à nossa literatura. E isso é que conta.

 

Via Expresso



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Quinta-feira, 03.12.09

Ricardo Araujo Pereira na Visão

 

O casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser referendado caso a caso. Se o objectivo é metermo-nos na vida dos outros, façamo-lo com o brio que essa nobre tarefa merece.

 

5:33 Quinta-feira, 3 de Dez de 2009

 

Confesso que não sei se as pessoas nascem com essa característica ou se optam por adoptar o comportamento desviante que a Bíblia, aliás, condena - mas, na minha opinião, os canhotos não deveriam poder casar. Nem adoptar crianças. Um casal de pessoas, digamos, normais, acaricia a cabeça dos filhos como deve ser, da esquerda para a direita. Os canhotos acariciam da direita para a esquerda, o que pode ter efeitos perversos na estrutura emocional das crianças. Na verdade, sou contra a adopção por casais heterossexuais em geral, sejam ou não canhotos. Atenção: não tenho nada contra os heterossexuais. Tenho muitos amigos heterossexuais e eu próprio sou um. Mas não concordo que possam adoptar crianças. Em primeiro lugar, porque é contranatura. Quando olhamos para a natureza, não vemos casais de pardais ou de coelhos a adoptarem crias de outros. Pelo contrário, esforçam-se por colocar as suas crias fora do ninho ou da toca o mais rapidamente possível. Ou usam as suas próprias crias para produzir novas crias. Mas não adoptam. Provavelmente, porque sabem que é contranatura. Por outro lado, a adopção por casais heterossexuais pode condicionar a sexualidade das crianças. Todos os homossexuais que conheço são filhos de casais heterossexuais. A influência de heterossexuais tem, por isso, aspectos nefastos que merecem estudo cuidadoso. Por fim, há a questão do estigma social. Suponhamos que uma criança adoptada por um casal heterossexual é convidada para ir a casa de um colega adoptado por um casal de homens. Como é que o miúdo que foi adoptado por heterossexuais se vai sentir quando perceber que a casa do colega está muito mais bem decorada do que a dele?

 

Quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, mais do que ser a favor de um referendo, sou a favor de vários. Creio que o casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser referendado caso a caso. O Fernando e o Mário querem casar? Pois promova-se uma grande discussão nacional sobre o assunto. A RTP que produza um Prós e Contras com cidadãos de vários quadrantes que se posicionem contra e a favor da união do Fernando e do Mário. Organizem-se debates entre o Mário e os antigos namorados do Fernando, para que o povo português possa ter a certeza de que o Fernando está a fazer a escolha certa. E depois, então sim, que Portugal vá às urnas decidir democraticamente se concede ao Mário a mão do Fernando em casamento. E assim para todos os matrimónios. Se o objectivo é metermo-nos na vida dos outros, façamo-lo com o brio que essa nobre tarefa merece.

 

Defendo, portanto, uma abordagem especialmente cautelosa desta questão. Sou muito sensível ao argumento segundo o qual, se permitirmos o casamento entre pessoas do mesmo sexo, teremos de legalizar também as uniões dos polígamos. E sou sensível porque, como é evidente, não posso negar que me vou apercebendo da grande movimentação social de reivindicação do direito dos polígamos ao casamento. Parece que já temos entre nós vários muçulmanos, grandes apreciadores da poligamia. E eu não tenho homossexuais na família, nem entre os meus amigos, mas polígamos, muçulmanos ou não, conheço umas boas dezenas. Se toda esta massa poligâmica desata a querer casar, receio que os notários fiquem com as falangetas em carne viva, de tanto redigirem contratos de união civil. Mas, felizmente, confio que os polígamos sejam, também eles, sensíveis à mais elementar lógica: a poligamia é uma relação entre uma pessoa e várias outras de sexo diferente. A reivindicarem a legalização das suas uniões, fá-lo-iam a propósito do casamento entre pessoas de sexo diferente, com o qual têm mais afinidades. A menos que se trate de poligamia entre pessoas do mesmo sexo. Mas, segundo o Presidente do Irão, parece que entre os muçulmanos não há disso.

 

 Via Visão



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Domingo, 18.10.09

Saramago, Biblia é manual de maus costumes

 

José Saramago afirmou que “a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. Sobre o livro Caim, que é apresentado hoje a nível mundial, o escritor defendeu que “na Igreja Católica não vai causar problemas porque os católicos não lêem a Bíblia". Mas admitiu que poderá gerar reacções entre os judeus.

“A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura!”, criticou, em Penafiel, numa entrevista à agência Lusa, o Nobel da Literatura de 1998, para quem não existe nada de divino na Bíblia, nem no Corão.

“O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!” afirmou.

Saramago sublinhou que “as guerras de religião estão na História, sabemos a tragédia que foram”. E considerou que as Cruzadas são um crime do Cristianismo, porque morreram milhares e milhares de pessoas, culpados e inocentes, ao abrigo da palavra de ordem "Deus o quer", tal como acontece hoje com a Jihad (Guerra Santa). Saramago lamenta que todo esse “horror” tenha feito em nome de “um Deus que não existe, nunca ninguém o viu”.

“O teólogo Hans Kung disse sobre isto uma frase que considero definitiva, que as religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros. Só isto basta para acabar com isso de Deus”, afirmou.

O escritor criticou também o conceito de inferno: "No Catolicismo os pecados são castigados com o inferno eterno. Isto é completamente idiota!”.

“Nós, os humanos somos muito mais misericordiosos. Quando alguém comete um delito vai cinco, dez ou 15 anos para a prisão e depois é reintegrado na sociedade, se quer”, disse.

“Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?”, perguntou.

“Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca”.

 

Via Público

 



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Domingo, 05.07.09

 Miguel Sousa Tavares

Via Cartoonices

 

“Esta noite sonhei com Mário Lino”, por Miguel Sousa Tavares (Expresso)

 

Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:

 

- É sempre assim, esta auto-estrada?

 

- Assim, como?

 

- Deserta, magnífica, sem trânsito?

 

- É, é sempre assim.

 

- Todos os dias?

 

- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.

 

- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?

 

- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.

 

- E têm mais auto-estradas destas?

 

- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. – respondi, rindo-me.

 

- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?

 

- Porque assim não pagam portagem.

 

- E porque são quase todos espanhóis?

 

- Vêm trazer-nos comida.

 

- Mas vocês não têm agricultura?

 

- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.

 

- Mas para os espanhóis é?

 

- Pelos vistos…

 

Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:

 

- Mas porque não investem antes no comboio?

 

- Investimos, mas não resultou.

 

- Não resultou, como?

 

- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.

 

- Mas porquê?

 

- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não ‘pendula’; e, quando ‘pendula’, enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de ‘modernidade’ foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.

 

- E gastaram nisso uma fortuna?

 

- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos…

 

- Estás a brincar comigo!

 

- Não, estou a falar a sério!

 

- E o que fizeram a esses incompetentes?

 

- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa… e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.

 

- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?

 

- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.

 

Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.

 

- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?

 

- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.

 

- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?

 

- Isso mesmo.

 

- E como entra em Lisboa?

 

- Por uma nova ponte que vão fazer.

 

- Uma ponte ferroviária?

 

- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.

 

- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!

 

- Pois é.

 

- E, então?

 

- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.

 

Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.

 

- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta…

 

- Não, não vai ter.

 

- Não vai? Então, vai ser uma ruína!

 

- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína – aliás, já admitida pelo Governo – porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.

 

- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?

 

- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!

 

- E vocês não despedem o Governo?

 

- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo…

 

- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?

 

- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.

 

- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?

 

- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.

 

- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?

 

- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.

 

Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:

 

- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?

 

- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.

 

- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?

 

- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.

 

- Não me pareceu nada…

 

- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.

 

- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?

 

- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.

 

- E tu acreditas nisso?

 

- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?

 

- Um lago enorme! Extraordinário!

 

- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.

 

- Ena! Deve produzir energia para meio país!

 

- Praticamente zero.

 

- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!

 

- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.

 

- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar – ou nem isso?

 

- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.

 

- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?

 

- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.

 

Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:

 

- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?

 

- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.

 

Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:

 

- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!

 

~ por omeuinfinitoparticular em Julho 3, 2009.

 

Via O meu infinito particular



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Sábado, 09.05.09

Marijuana legal como a imperial 

 

.Via Arrastão

 

... ou como o Prozac, ou Xanax, ou a Ritalina... ou.... tantas outras drogas que fazem muito pior à saude



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