Sábado, 26.06.10

Ao faltar ao funeral de José Saramago, o Presidente da República mostrou que põe o cidadão Aníbal e o político Cavaco acima do cargo que ocupa. Mostrou ser demasiado pequeno para representar o País.

 

José Saramago e Cavaco Silva nunca se admiraram um ao outro. Por causa de um obscuro subsecretário de Estado de Cavaco o escritor terá mesmo abandonado o País. Por isso, se Aníbal Cavaco Silva tivesse comparecido no funeral de José Saramago muitos diriam que se tratava de hipocrisia. Mas, ainda assim, o Presidente da República tinha de ir e aguentar com dignidade essa acusação. Porque as críticas que lhe fariam, pondo em causa o homem, deixariam intacta a instituição que ele representa. Porque quem lá estaria não seria Cavaco SilvaSeria o Presidente da República portuguesa.

A justificação que Cavaco Silva apresentou - não era amigo ou conhecido do escritor - e a verdadeira razão porque esteve ausente - não suporta prestar homenagem a alguém que o enfrentou - são absurdas mas reveladoras. Absurdas porque as funções de representação de um Presidente não são para os amigos. Reveladoras porque mostram que temos como Presidente da República alguém que não consegue ser maior do que o cidadão Aníbal e do que o político Cavaco.

É indiferente se o cidadão Aníbal alguma vez conheceu ou foi amigo de José Saramago. É irrelevante o que o político Cavaco sente em relação ao escritor Saramago. Sendo um momento importante para o Estado português, ninguém faria questão que lá estivessem o Aníbal ou o Cavaco. Mas o Presidente da República, esse, nunca poderia faltar à última homenagem ao único prémio Nobel da Literatura de língua portuguesa. A um dos mais importantes escritores do século XX. Àquele que, com Fernando Pessoa, atingiu maior notoriedade internacional. É incoerente decretar dois dias de luto nacional e depois estar ausente da cerimónia oficial.

Cavaco Silva mostrou este fim-de-semana que, mesmo no cargo que ocupa, não consegue ser mais do que ele próprio. Não consegue representar o País. E um Presidente que não está acima da sua pequenez, que não percebe a grandeza de um cargo que o transcende, é e será sempre um mau Presidente.

Dito tudo isto, este episódio infeliz com Cavaco Silva, a ignorância de Sousa Lara, a triste reacção do jornal oficial do Vaticano à morte de um grande escritor e outras tantas irrelevâncias não merecerão uma nota de rodapé na História. Já o "Memorial do Convento", o "Levantados do Chão", o "Ano da Morte de Ricardo Reis" ou a "História do Cerco de Lisboa" ninguém tira à nossa literatura. E isso é que conta.

 

Via Expresso



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Terça-feira, 23.02.10

Apesar de não ser meu costume falar da minha vida, quero deixar as coisas claras. Sou de uma família que nada tem a ver com aquela que vi durante a minha infância retratada na televisão, na publicidade e nas homilias. Uma família reconstruída muitas vezes. Com padrastos, ex-padrastos, madrastas, ex-madrastas, meios-irmãos, namoradas e namorados, “avodrastos”, pais dos irmãos e irmãos dos irmãos que não são meus irmãos. Com quase todos os filhos nascidos sem casamentos. Com casamentos quase todos pelo civil. Com uniões de facto muito antes delas sequer terem nome no debate público. E sou de uma família. Unida como poucas. Quase um clã. Onde o afecto ultrapassa a obrigação do parentesco definido na lei. Dou-lhe um valor central em todos os aspectos da minha vida. É a minha segurança, a rede que ampara todos os riscos que corro. Não me imagino sem ela. Não só por o que me deu. Mas por o que me dá. Eu sou, em grande parte, a minha família.

Por isso, para que não restem dúvidas, não aceito que as pessoas que se manifestaram no último fim-de-semana se auto-intitulem representantes da “família”. Representam apenas e só a família que acham legítima. A deles e mais nenhuma. E que, diga-se em abono da verdade, é cada vez menos hegemónica na sociedade portuguesa. Já são mais os que se casam pelo civil do que pelo religioso, um terço dos casais não se casa nem no civil nem no religioso, mais de um terço das crianças nasce fora do casamento, quase um quarto dos casamentos são segundos ou terceiros casamentos…

Quando era criança o modelo de família que eu conhecia pela minha experiência era ultra-minoritário. Mas era o meu. E eu era feliz nele. Tão feliz que, como provavelmente os que se manifestaram no sábado, o reproduzi na minha vida. Solteiro, em união de facto, com filhos sem casamento. Meios-irmãos da minha filha. Tudo. É assim mesmo: sentimo-nos bem no mundo que conhecemos. Serei nisto, provavelmente, um conservador: segui a tradição que me era familiar.

Dou (ou nem sequer tenho de dar), por isso, todo o direito a quem só se sente bem com o modelo de família a que chamamos tradicional a gostar dele e de só nele se sentir confortável. Olho para eles provavelmente com a mesma estranheza que eles olham para mim. Tudo normal. Não preciso que gostem do meu modo de vida e eles não precisam que eu goste do seu modo de vida.

Apenas uma diferença: eu não me quero meter na vida deles. Aceito o modo de vida que escolheram ou que lhes foi dado a escolher. Não é da minha conta. Apenas lhes exijo a mesma coisa. Que me respeitem. E que respeitem também aqueles que, sendo homossexuais, querem ver a sua situação oficializada. Resumindo: que não façam da sua estranheza e do seu incómodo, que é tão natural como o meu em relação ao seu modo de vida, lei do Estado.

Por isso, não estamos no mesmo plano. Eu aceito os modelos de família dos outros, porque é dos outros e não afecta o meu. Eles não aceitam o modelos de família dos outros, porque acham que têm o direito de desqualificar, através das leis do Estado, a liberdade de escolha dos que os rodeiam. Eles, e apenas eles, são os radicais. E a manifestação que fizeram não foi apenas contra os casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Sendo em defesa de um modelo oficial de família (o deles), foi também contra a minha liberdade. Foi também contra a minha família. E isso eu levo a mal.

 

Daniel Oliveira


Via Arrastão



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