Sexta-feira, 19.11.10

Francesinha, a verdadeira história

 

Há uma história da francesinha que ninguém conhece, mas que esta sexta feira vai ser revelada no primeiro percurso pedonal de reconstituição do percurso do prato, no Porto: a sua relação próxima com a figura feminina.

O percurso, orientado por Graça Lacerda, irá conduzir os curiosos pela história deste petisco portuense, porque “Comer uma francesinha” é mais do que saborear um prato, é “um convívio à moda do Porto”.

A guia do original roteiro contou hoje à Lusa quais são as origens da francesinha.

De acordo com mentora do percurso, o criador do prato, Daniel David Silva, era “bastante mulherengo”. Depois de um périplo internacional, aterrou no Porto e descobriu que as mulheres eram demasiado discretas para o que estava habituado, andando muito tapadas e sendo muito reservadas.

A desilusão com as mulheres portuenses levou-o, segundo Graça Lacerda, a querer criar um prato “apurado”.

“Ele dizia que a mulher mais picante que conhecia era a francesa. Quis dar um toque picante ao prato e chamou-lhe francesinha”, disse.

O petisco, que nos anos 50 era uma comida fora de horas - um lanche reforçado ou uma merenda depois de uma sessão de cinema tardia - estava conotado com o universo masculino.

“Ainda sou do tempo em que a francesinha era vista como um prato para rapazes solteiros. As raparigas que comiam francesinha eram mal vistas”, recordou.

Os tempos mudaram e com ele os preconceitos relativos à francesinha e até a sua própria “fisionomia”: um petisco que era pouco mais do que uma tosta mista com molho tornou-se num parto mais do que sustentado, para responder à evolução da sociedade.

“Hoje em dia, já não temos tempo para o lanche e as sessões de cinema proliferam. A francesinha passou a ser um prato de almoço ou jantar, ao qual se juntou a batata frita”, explicou Graça Lacerda, que se tornou especialista na matéria depois de longas pesquisas.

Documentação, imagem, cartazes, livros de receitas, entrevistas a pessoas, entre as quais o atual dono do restaurante “A Regaleira” - que conheceu pessoalmente o inventor do prato que é o rosto do Porto - tudo serviu para reconstruir os passos da francesinha.

“Não temos bibliografia, mas temos testemunhos vivos”, disse, reconhecendo que há vantagens e desvantagens derivadas da subjetividade dos relatos e das opiniões diferentes.

Esta sexta feira, 60 pessoas vão percorrer um percurso que tem seis etapas: “Receita típica do Porto no Século XX”, “E tudo começou na Rua do Bonjardim…”, “Onde comer as melhores francesinhas?”, “Pão, queijo, recheio e molho”, “Para si, uma boa francesinha é…” e “Qual será o segredo da francesinha?”.

O passeio gastronómico tem início perto das 15:00 na Biblioteca de Assuntos Portuenses e termina no Restaurante “Jardim da Irene” e no Café “Universidade”, cerca das 17:00.

 

Via Ionline



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Sábado, 02.10.10

Os melhores sítios para comer tripas

 

O provérbio diz que a necessidade aguça o engenho. A história do Porto demonstrou que também serviu para aguçar o apetite. Durante os Descobrimentos, pediram aos portuenses alimentos para abastecer as naus que iam tomar Ceuta. As carnes seguiram e a população ficou com as miudezas. A partir das tripas, imaginaram-se muitas alternativas na cozinha. Nasciam as "Tripas à Moda do Porto", que figuram na montra dos mais importantes símbolos da cidade. Raul Solnado elogiou-as e José Mourinho provou-as quase por correio. Descubra alguns dos melhores sítios para as comer.

O Líder Manuel Moura, proprietário deste restaurante, não tem dúvidas que as tripas são um "ex-libris" da cidade do Porto. Nada pode faltar na receita: "A touca e o estômago do animal, mão de vaca, feijão branco, cenoura, refogado com cebola, bacon e toucinho fresco, chouriço, bom azeite, sal, pimenta e cominhos." Para acompanhar, arroz branco seco. É servido numa caçarola e decorado com salsa picada, frango desfiado e orelheira de porco fresca. E um bom vinho tinto, "seja maduro ou verde". Preços: por 16,5 euros comem duas pessoas. 

Alameda Eça de Queiroz.

A Cozinha do Manel Às quartas-feiras e sábados, os amantes das tripas podem rumar à Cozinha do Manel. No passado fim-de-semana, "mais de trinta pessoas pediram para levar tripas para casa", garante ao i Manuel Mendes. Tiveram mesmo de confeccionar tripas "adicionais" porque "o desejo do cliente é sempre uma obrigação". O proprietário avisa que as tripas têm de estar "bem lavadas e cozidas". Uma dose é servida por dez euros. Rua do Heroísmo.

Pombeiro O prato é "muito requisitado" neste local. Quando venceram o primeiro prémio num concurso, em 2002, pediram-lhes que passassem a cozinhá-lo "todos os dias", conta Manuel Pinto Pereira. Os ingredientes passam no teste da qualidade, "vêm da aldeia", e os fregueses, de todo o lado... "Vem gente de Lisboa comer as tripas. No tempo em que o Mourinho estava no Chelsea, os amigos levaram-lhe tripas. Ele ainda não passou por cá, mas sei que as comeu e repetiu. Também já as levaram para a Bélgica e um dos grandes admiradores deste restaurante foi Raul Solnado. Escreveu que fazíamos as melhores tripas do universo e o papel ainda está na parede", garante. Preços: 8,5 euros para uma pessoa e 15 euros para duas. Rua do Capitão Pombeiro.

O Buraco Há 40 anos que o ritual se repete no restaurante O Buraco. Todas as sextas-feiras as tripas enchem as mesas. "Qualquer estrangeiro que aqui vem pede tripas", refere o proprietário Manuel Azevedo. A casa é conhecida pelo peixe fresco, mas todos os dias há um "prato forte" de carne no menú. Diz quem sabe que depois de comer tripas o melhor é não ter muito que fazer. Sirva, por exemplo, com uma reserva duriense "Coimbra de Mattos" e a seguir vá "dormir uma soneca". Preços: seis euros para uma pessoa, 12 euros para duas. Rua do Bolhão.

Casa Correia Uma das mais-valias deste estabelecimento é o facto de ser uma tasquinha típica. Os clientes parecem gostar, porque "já há pouco disso", refere José Pereira Correia. Mas não só. Ele próprio torna-se um cliente regular das tripas que a mulher prepara às quintas-feiras. Gosta "muito" de um "pratinho muito apreciado no Porto". Um dos segredos está no "variedade de carnes". Preços: Meia dose por 8,5 euros e por 13,5 euros comem duas pessoas. Rua Dr. Barbosa de Castro.

Se ainda não se decidiu, esmiúce as restantes sugestões do Chefe Hélio Loureiro, presidente da Confraria Gastronómica das Tripas à Moda do Porto. "O Tripeiro", onde se comem tripas "muitíssimo bem confeccionadas"; o restaurante "Casa Aleixo", espaço emblemático mais conhecido pelo polvo, mas com uma "persistência de receituário" que torna as tripas "das melhores da cidade" e o espaço "Salsa & Loureiro", no Hotel Porto Palácio, que serve tripas à quarta-feira.

 

Via ionline



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Quarta-feira, 23.09.09

Cobra.. ou peixe?

 

 A paixão de Charles Darwin por animais foi muito além da teoria de evolução das espécies. O famoso cientista do século XIX não só gostava de estudar todos os bichos à face da Terra, como de conhecer o seu intrigante sabor. Em Cambridge, tinha por hábito reunir-se uma vez por semana no quarto dos colegas universitários e servir o jantar de mais uma sessão do Clube dos Glutões, ou simplesmente do Clube Gourmet, como se intitulavam. A ementa raramente se repetia e era constituída, segundo o próprio, por "aves e animais desconhecidos do paladar humano". Mas os jantares do clube acabaram quando nenhum dos membros conseguiu aguentar o sabor "indescritível" de uma velha coruja. Darwin não desistiu das extravagâncias gastronómicas e durante as suas missões pelo mundo experimentou animais exóticos como pumas, tatus que "sabiam a pato", iguanas e tartarugas gigantes. Há quem tenha cágados a nadar num aquário, mas Darwin preferiu levar 48 a bordo de um barco para serem servidos durante uma longa viagem.


Hoje em dia já não é preciso fazer reuniões secretas em quartos de estudantes para experimentar sabores diferentes. É certo e sabido que pelas mesas da China passa um pouco de tudo, desde carne de cão até pratos cujo protagonista é o macaco. A Portugal também já chegaram carnes exóticas, oriundas de outros continentes e tão estranhas ao paladar como a de crocodilo.

Crocodilo com batatas fritas O restaurante As Colunas, no número 51 da Rua Elias Garcia, faz a fronteira entre a Amadora e as Portas de Benfica e tem o aspecto típico de qualquer restaurante de caça, onde várias famílias se juntam ao fim-de- -semana para comer bons petiscos. E até cauda de crocodilo, em vez do tradicional cozido à portuguesa. Nas paredes, algumas cabeças de mamíferos observam-nos com um olhar perdido, ignorando os pratos da ementa: costeletas de crocodilo e escalopes de zebra grelhados, ou canguru e camelo na brasa. "São carnes importadas que vêm da África do Sul. Por acaso o crocodilo que temos vem da Zâmbia", explica o dono, o caçador José Gonçalves. Há dez anos que satisfaz os estômagos curiosos dos clientes que querem provar animais estranhos ao paladar. "Não é todos os dias que nos pedem estes pratos, mas há quem venha cá de propósito", conta. Decidimos pedir uma dose de crocodilo por 18 euros, sem antes perguntar qual é o sabor da espécie. "Não é carne nem é peixe, sabe mesmo a crocodilo", diz José Gonçalves. Perante o nosso olhar desconfiado, Gonçalves, como é chamado pelos clientes, esclarece: "É uma carne branca, da cauda do animal e come-se bem. É grelhada na brasa com sal para apurar o sabor."

Pouco tempo depois, a famosa criatura chega à mesa, acompanhada de batatas fritas e feijão verde. Poderia facilmente ser confundida com febras grelhadas, mas o sabor é inigualável. Uma mistura saborosa entre peito de peru e espadarte que desaparece rapidamente. No prato ficam só os ossos e um sabor leve na boca. "Dizem que as melhores partes são o lombo e as patas, mas essas não chegam cá", diz o caçador enquanto levanta a mesa.

Cobra rija Há quatro anos, José Gonçalves teve cobra na ementa. "Mas deixei de servir porque a última que recebi do fornecedor era muito rija", conta. Na altura, o réptil foi muito popular entre os ciganos que vendiam numa feira ali perto. "Pode comer-se frita ou num ensopado, como as enguias", adianta. Mas a viagem da África do Sul até à Amadora sai cara. "Um quilo de cobra custa cem euros." José Gonçalves compra as iguarias a um fornecedor espanhol que, por sua vez, as importa de África. Mas não é o único.

Francisco Camacho, de 44 anos, conta que os clientes se riem quando lêem a ementa do restaurante Vinte9, no centro de Vila Nova de Mil Fontes. "Pensam que é uma brincadeira, que inventámos nomes para os pratos", diz o dono. Não é uma brincadeira, mas provavelmente todas as associações de protecção dos animais gostariam que fosse. Além do crocodilo a 13 euros, "que 80 por cento das pessoas pede por curiosidade", o restaurante serve javali, veado, zebra e canguru. "A carne de zebra é a mais cara [27 euros o quilo] e é muito boa", diz o dono.

Bife de canguru Pedro Nobre, de 38 anos, mudou há um ano a sua Tasquinha Alentejana para um espaço maior, em Cucujães, Oliveira de Azeméis. O restaurante, sempre cheio, recebeu na semana passada carne de zebra. "Experimentei, mas não gostei muito. A que gosto mais é a de canguru estufada", conta Pedro Nobre, que introduziu novos animais no menu para dar outras oportunidades gastronómicas a quem se senta às suas mesas. "É parecida com a carne de vaca mas mais doce e tenra." Aos clientes, aconselha a pedir meias doses e a combinar vários pratos. "A carne de camelo é esponjosa, vermelha e mais dura, mas há quem goste." A maior parte dos animais vem do outro lado do mundo, da Nova Zelândia, excepto o tubarão grelhado com legumes dos mares de Cabo Verde. "Há pessoas que me perguntam se vão sair dali aos saltos por comerem canguru ou quantos homens é que o crocodilo comeu antes de ser cozinhado." Pedro costuma brincar e gritar para a cozinha: "Mata-me aí um crocodilo!"

 

Via ionline



publicado por olhar para o mundo às 13:20 | link do post | comentar

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