Sábado, 16.01.10

A queca de Clara Pinto Correia ... ou será fazer amor?

 

Clara Pinto Correia sobe à pressa as escadas do Centro Cultural de Cascais. Vem até ao último piso, onde está a exposição "Sexpressions", um conjunto de dez fotografias suas captadas pelo marido, o fotógrafo Pedro Palma, durante o acto sexual. Chega atrasada porque vem de outra entrevista para a televisão. "Perguntaram-me logo como tinha sido fingir o orgasmo", protesta a escritora e bióloga. "Tive de pôr tudo na ordem, não fingi orgasmo nenhum", diz, despachada. Na véspera da inauguração da exposição, a 7 de Janeiro, as suas fotografias foram publicadas na internet e geraram uma onda de comentários indignados e sarcásticos. Os últimos tempos não têm sido fáceis. "Estou quase a fazer 50 anos e estou farta de pagar o preço pelas coisas que faço." Apesar disso, fala aberta e apaixonadamente sobre a exposição e a sessão fotográfica, ideia de Pedro, com quem está casada há um ano e meio. Só não gosta de falar do plágio (em 2004 foi acusada de publicar na "Visão" textos copiados da "New Yorker"): "A história está muito mal contada e ninguém me quis ouvir na altura."


Não tem pudor de se expor desta maneira?

Neste contexto não tenho pudor absolutamente nenhum. São espaços para amantes de arte, e acho que fizemos um trabalho magnífico. Quando as fotografias escapam para a internet e começam a aparecer em tudo quanto é sítio com títulos e comentários ordinários, isso claro que prejudica a minha carreira e inferniza-me completamente a vida. 

Noutro país a exposição seria recebida de maneira diferente? Os portugueses são conservadores?

A culpa não é dos portugueses. É das pessoas mal informadas que não estão habituadas a espaços artísticos. Se isto se passasse nos Estados Unidos, haveria mais visitantes e um interesse maior. Ninguém devia fazer comentários antes de ver a exposição, mas somos impotentes... A internet, além de muitas coisas maravilhosas, também nos proporciona estes dissabores horríveis, como estes últimos dias que tenho vivido. Mas isso passa e as coisas boas que fazemos ficam.

Acha que as opiniões mudam depois de uma visita à exposição?

Sinto que aqui reina uma serenidade muito grande. As pessoas lêem os textos de alto a baixo e demoram-se a ver as fotografias. Saem daqui a sentir-se bem, vão com ideias para casa e isso já é muito bom... Ninguém anda a pensar. Cristalizar o estado de paixão desta maneira é uma dádiva muito grande.

É essa a mensagem que quer transmitir, a cristalização da paixão?

Uma mensagem é uma coisa um bocado foleira. Mas aqui nesta sala sente-se uma energia especial que só podemos ir buscar ao amor. As pessoas passaram a falar só de sexo, sexo, sexo, mas isso não é um substituto do poder que o amor nos dá. A frase maravilhosa de Santo Agostinho devia ser o guideline para o comportamento de toda a gente: "Ama e faz o que quiseres." O contentor onde devia estar a energia que o amor nos dá está a ficar vazio... Despacha-se tudo a correr.

Despacha-se o sexo a correr?

Quando fazer amor se transforma numa queca está tudo perdido. Há a ideia de que é preciso despachar tudo a correr, nada é para fruir calmamente. E isto devolve essa calma, essa energia especial mesmo que de uma forma subtil.

Já tinha isso em mente quando decidiu fazer as fotos? A ideia deste projecto foi sua?

Nunca me tinha passado pela cabeça fazer uma coisa assim. Sou professora universitária, não sou artista plástica. Eu e o João Pedro, no nosso primeiro dia de namoro, no Miradouro de Santa Catarina, começámos a falar destemperadamente de projectos que tínhamos na algibeira. Ele falou-me da maneira como mudam as expressões das mulheres quando estão a fazer amor e de como seria interessante pôr uma série de máquinas a apontar para a cara de uma mulher.

Para a sua cara...

Como isso só seria bonito com uma pessoa profundamente apaixonada, chegámos à conclusão de que os dois podíamos perfeitamente fazê-lo. Nenhuma pessoa fica bonita no sexo, mas uma pessoa apaixonada e entregue à pessoa que ama transfigura-se. Fica com um sorriso que não tem em circunstância alguma, um brilho nos olhos que não é deste mundo e que a levanta não sei quantos centímetros acima do chão.

O tema do prazer é pouco explorado?

O prazer feminino tem sido um tema tão pouco estudado que a mim, nestas condições, me interessaria explorá-lo. Até quase à nossa era, o orgasmo só existia para induzir a mulher a copular, porque o mais provável era ficar grávida. O prazer só servia para convencer a mulher a correr esses riscos tremendos. Nós herdámos esta cultura e é importantíssimo que comecemos a acarinhar, a fruir e a olhar nos olhos o prazer feminino.

Então aceitou logo ser fotografada?

Foi uma sintonia maravilhosa. Propus ao João Pedro fazer um texto para acompanhar as fotografias sobre o que se passa na cabeça da mulher à medida que o prazer dela aumenta. Da beatitude, o estado de transcendência de duas pessoas, à descida à terra e a voltarem a falar um com o outro. Escrevi-o muito antes das fotos e só lhe mostrei quando estava pronto. 

Que material utilizaram para fotografar?

Houve várias sessões e nem todas correram bem. As coisas técnicas, o João Pedro pode explicar melhor que eu [ver página seguinte]. Sei que o quarto estava cheio de tralha e estavam montes de flashes a disparar ao mesmo tempo. 

Foi fácil abstrair-se das câmaras?

Se uma pessoa está completamente apaixonada e a fazer amor com o homem que ama, não liga a disparos de máquinas. É a mesma coisa que estar música a tocar ou efeitos especiais. Mas não seria confortável a presença de uma terceira pessoa.

As câmaras não são, de certa maneira, uma terceira pessoa?

Máquinas são máquinas... Elas estavam lá para disparar, eram uns efeitos luminosos, uns sons que se ouviam... podia ser um espectáculo luminoso só para nós. Isso a mim não me incomodava nada, estava a fazer o que era normal: entregar-me ao homem que amava.

Como seleccionaram as fotografias?

Foi o Pedro. Tenho absoluta confiança nele. A minha parte era o texto. Da mesma maneira que ele não se meteu no texto, eu não me meti nas fotografias. A única que escolhemos juntos foi a do cigarro.

Foi encenada?

Nenhuma foi encenada.

Nas dez fotografias está de olhos fechados. Foi propositada essa escolha?

Foi pena só terem vindo parar à exposição fotografias em que estou de olhos fechados. É um cliché tramado. Não é verdade, nós não fazemos amor de olhos fechados. Sobretudo quando estamos apaixonados, queremos ver a cara da outra pessoa e na maior parte das fotografias estou de olhos abertos. Eu gosto de ver.

Tem alguma fotografia preferida?

Gosto muito de algumas fotografias em que estou com os olhos abertos. Há uma que pareço uma adolescente a quem alguém deu uma coisa muito boa... um chocolate...

Como é que a sua família reagiu às imagens?

As minhas irmãs ligaram-me quando começaram a ver a porcaria toda que saiu nos jornais pimba e tudo o que apareceu na internet. Telefonaram-me a perguntar se precisava de ajuda ou de alguma coisa. Pior que os comentários foram os títulos que puseram nas notícias... É mortificante. Não têm sido dias fáceis...

É o preço que paga por tentar fazer uma coisa diferente?

É. Com toda a franqueza, estou quase a fazer 50 anos e estou farta de pagar o preço pelas coisas que faço. Isto para mim foi a gota de água, tanta ordina- rice...

Pior que o que se disse na altura do plágio?

A história está muito mal contada e ninguém me quis ouvir na altura. Eu já encerrei o capítulo há muito tempo... Já aguentei muita merda... São aqueles momentos em que eu, que gosto muito do meu país, me dá vontade de fazer as malas e voltar para os Estados Unidos.

Se não fosse uma figura pública, acha que a exposição teria este impacto?

Ainda era melhor num sítio em que ninguém me conhecesse, porque as pessoas não estavam a ver a Clara Pinto Correia. Estavam a ver uma mulher a ter prazer.

 

Via Ionline



publicado por olhar para o mundo às 21:01 | link do post | comentar | ver comentários (3)

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