Terça-feira, 23.02.10

Apesar de não ser meu costume falar da minha vida, quero deixar as coisas claras. Sou de uma família que nada tem a ver com aquela que vi durante a minha infância retratada na televisão, na publicidade e nas homilias. Uma família reconstruída muitas vezes. Com padrastos, ex-padrastos, madrastas, ex-madrastas, meios-irmãos, namoradas e namorados, “avodrastos”, pais dos irmãos e irmãos dos irmãos que não são meus irmãos. Com quase todos os filhos nascidos sem casamentos. Com casamentos quase todos pelo civil. Com uniões de facto muito antes delas sequer terem nome no debate público. E sou de uma família. Unida como poucas. Quase um clã. Onde o afecto ultrapassa a obrigação do parentesco definido na lei. Dou-lhe um valor central em todos os aspectos da minha vida. É a minha segurança, a rede que ampara todos os riscos que corro. Não me imagino sem ela. Não só por o que me deu. Mas por o que me dá. Eu sou, em grande parte, a minha família.

Por isso, para que não restem dúvidas, não aceito que as pessoas que se manifestaram no último fim-de-semana se auto-intitulem representantes da “família”. Representam apenas e só a família que acham legítima. A deles e mais nenhuma. E que, diga-se em abono da verdade, é cada vez menos hegemónica na sociedade portuguesa. Já são mais os que se casam pelo civil do que pelo religioso, um terço dos casais não se casa nem no civil nem no religioso, mais de um terço das crianças nasce fora do casamento, quase um quarto dos casamentos são segundos ou terceiros casamentos…

Quando era criança o modelo de família que eu conhecia pela minha experiência era ultra-minoritário. Mas era o meu. E eu era feliz nele. Tão feliz que, como provavelmente os que se manifestaram no sábado, o reproduzi na minha vida. Solteiro, em união de facto, com filhos sem casamento. Meios-irmãos da minha filha. Tudo. É assim mesmo: sentimo-nos bem no mundo que conhecemos. Serei nisto, provavelmente, um conservador: segui a tradição que me era familiar.

Dou (ou nem sequer tenho de dar), por isso, todo o direito a quem só se sente bem com o modelo de família a que chamamos tradicional a gostar dele e de só nele se sentir confortável. Olho para eles provavelmente com a mesma estranheza que eles olham para mim. Tudo normal. Não preciso que gostem do meu modo de vida e eles não precisam que eu goste do seu modo de vida.

Apenas uma diferença: eu não me quero meter na vida deles. Aceito o modo de vida que escolheram ou que lhes foi dado a escolher. Não é da minha conta. Apenas lhes exijo a mesma coisa. Que me respeitem. E que respeitem também aqueles que, sendo homossexuais, querem ver a sua situação oficializada. Resumindo: que não façam da sua estranheza e do seu incómodo, que é tão natural como o meu em relação ao seu modo de vida, lei do Estado.

Por isso, não estamos no mesmo plano. Eu aceito os modelos de família dos outros, porque é dos outros e não afecta o meu. Eles não aceitam o modelos de família dos outros, porque acham que têm o direito de desqualificar, através das leis do Estado, a liberdade de escolha dos que os rodeiam. Eles, e apenas eles, são os radicais. E a manifestação que fizeram não foi apenas contra os casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Sendo em defesa de um modelo oficial de família (o deles), foi também contra a minha liberdade. Foi também contra a minha família. E isso eu levo a mal.

 

Daniel Oliveira


Via Arrastão



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Sexta-feira, 08.01.10

  “A adopção é uma questão totalmente diferente do casamento. Na adopção não está em causa realizar um direito de pessoas livres e adultas”, disse, considerando que o Governo apenas tem mandato para legislar sobre o casamento homossexual. 

 

Retirado do Público

 

Sócrates na assembleia da república.

 

Então e adoptar não é um direito das pessoas livres e adultas?.... não há pior cego que quem não quer ver!!!!

 



publicado por olhar para o mundo às 12:11 | link do post | comentar

Quarta-feira, 16.12.09

 O casamento entre pessoas do mesmo sexo vai amanhã a Conselho de Ministros. O tema consta da agenda ministerial e o objectivo passa por aprovar desde já a proposta de lei. O que só não sucederá se forem levantadas dúvidas quanto ao articulado proposto.

Ao que o DN apurou, o Governo prepara-se para viabilizar a união entre pessoas do mesmo sexo através da alteração a três artigos do Código Civil. A começar pelo inevitável 1577, que actualmente estabelece que o "casamento é um contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendam constituir família mediante uma plena comunhão de vida". Além deste ponto, de onde desaparecerá a expressão "de sexo diferente", deverá ser revogada uma das alíneas do artigo 1628. Este ponto do Código Civil define várias situações em que um casamento é considerado "juridicamente inexistente", sendo que uma delas é precisamente a união "contraída por duas pessoas do mesmo sexo".

O articulado que irá amanhã a Conselho de Ministros deverá também propor alterações ao artigo 1979 do Código. Que, no número um da versão actual, estabelece que "podem adoptar plenamente duas pessoas casadas há mais de quatro anos e não separadas judicialmente de pessoas e bens ou de facto, se ambas tiverem mais de 25 anos".

Com a alteração a esta formulação, o Executivo pretende deixar expresso o impedimento de um casal do mesmo sexo poder adoptar uma criança. O primeiro-ministro, José Sócrates, já deixou claro que o compromisso eleitoral do PS se reporta apenas à legalização do casamento e não à possibilidade de adopção por casais do mesmo sexo.

Com a aprovação em Conselho de Ministros, a proposta de lei que acabará com a interdição ao casamento homossexual dará entrada na Assembleia da República a tempo de ser debatida antes da discussão do Orçamento do Estado, que entrará no Parlamento em meados de Janeiro.

A iniciativa do Governo tem aprovação garantida pelas bancadas à esquerda do hemiciclo. Já a direita promete contrapor à iniciativa do Executivo uma proposta para a criação da união civil registada, uma nova figura legal específica para as uniões homossexuais. Um cenário que já foi admitido pelo líder parlamentar do PSD, José Pedro Aguiar-Branco, mas também pela bancada dos democratas-cristãos, mas que contará com a oposição de socialistas, comunistas, bloquistas, e do PEV.

Recorde-se que estes dois últimos partidos avançaram na última legislatura com projectos de lei para a legalização do casamento homossexual, que foram então chumbados pelo PS, com o argumento de que o partido não tinha apresentado esse compromisso aos eleitores.

Mesmo com aprovação garantida no Parlamento, o diploma do Governo terá ainda de passar pela promulgação do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Mas, mesmo em caso de eventual veto, os deputados poderão reaprovar o diploma por maioria simples, após o que o Presidente da República terá de aprovar a proposta.

Via DN



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