Quinta-feira, 03.02.11

Já passaram alguns anos. Mas há um momento específico que ficará para sempre gravado na memória de Diana Cruz. Num certo verão, quando chegou à praia onde toda a vida passara férias, à medida que caminhava em direção ao mar, ouviu à sua passagem: "Olha, agora esta é fufa!"

Hoje, ao lembrar-se desse sussurro sem a violência que foi ouvir aquilo, dito daquela maneira, no momento em que acabara de se apaixonar, pode até recordar a cena e dizer a frase como se nada fosse. Mas quando as palavras lhe saem da boca passa-lhe subitamente um brilho cortante pelos olhos claros.

"O que me custou mais", diz Diana enquanto vai dando pequeninos golos no chá de jasmim, "foi perceber como era difícil eu própria aceitar. O confronto com os outros foi terrível." Faz uma pausa e enumera: os amigos que deixaram de a convidar, os comentários de uns, a comiseração de outros que a olhavam como se estivesse doente, a irmã que deixou de lhe falar...

"Mas o confronto mais duro foi comigo própria. Estava convencida de que era uma pessoa absolutamente liberal. De repente, percebi que tinha imensos preconceitos e dava muita importância ao olhar dos outros. Não me julgava tão fraca. E isso entristeceu-me."

Paixão avassaladora

 

O que aconteceu a Diana, quase à beira dos 40, foi isto: "Reparava nela quando nos cruzávamos no corredor. Nessa altura, ainda estava casada. Lembro-me de a ver no supermercado e de ter ficado a pensar. Talvez fosse o ar, uma certa androginia que me atraía inexplicavelmente. Um dia aconteceu. Ao princípio, achei que seria uma experiência, só por curiosidade. Na minha cabeça, uma relação com uma mulher não era uma equação, estava totalmente fora do meu universo. Mas depois apaixonei-me. E foi tão avassalador que não tive hipótese de fugir."

Poderíamos dizer que o mundo desabou, mas não foi exatamente esse o caso. Porque o mundo não desaba assim, apenas recomeça de um modo diferente: "As pessoas perguntavam-me: 'O que é que te aconteceu? Sempre gostaste de mulheres e tinhas medo de assumir?' Exigiam-me definições, ninguém gosta da ambiguidade. E eu também me interrogava: 'Será que andei estes anos todos a fugir?' Depois percebi que não. Os homens não deixaram de me interessar. Tenho a nostalgia da masculinidade, ainda hoje quando chego a um sítio a minha atenção vai para os homens. Mas também passei a ter mais consciência da presença das mulheres. Não sei se voltarei a ter uma relação assim com outra mulher, mas também não sei se conseguirei voltar a estar com um homem com a displicência e a naturalidade com que estava. Nesta relação fui a sítios emocionais a que nunca tinha ido e se passarmos ao plano físico posso dizer, sem vacilar, que foi a minha relação mais libertadora e mais plena. Não me arrependo um segundo."

Ainda é cedo, Diana acabou de largar os filhos na escola, os seus gémeos de 7 anos. Daqui a pouco terá de ir trabalhar. É publicitária, anda atordoada de trabalho e, esta manhã, ao sentar-se à mesa com uma estranha para lhe contar uma parte da sua vida, tão íntima, dá-se conta da dimensão do desabafo: "O que me custa mais é pensar que a minha felicidade pode custar o sofrimento dos meus filhos. Ainda são pequenos, não percebem, pensam que é uma amiga como tantas outras, mas e depois? Gostava de pensar que um dia terei a coragem de ter uma vida em família com esta mulher. Mas ainda há um longo caminho a percorrer..."

Ser ou não ser, eis a questão

 

Luís Antunes diz ao telefone que o seu testemunho talvez possa interessar: "Toda a vida me senti homossexual. Mas há dois anos apaixonei-me por uma mulher e casei", explicou. Aparece ao encontro depois de ter passado a noite inteira no hospital. É enfermeiro, tem 26 anos. "Eu próprio fique muito surpreendido quando percebi que era bissexual." Porquê a surpresa? "Desde pequeno, toda a aproximação amorosa foi com rapazes: os jogos, os contactos, os primeiros beijos..." Aos 16 anos, o primeiro namoro. E um dia, à hora do jantar, com a família toda reunida, disse: "Tenho uma coisa para vos contar." Pensou que seria simples, que iriam aceitar, "fui muito ingénuo", recorda. "O meu pai negou, as minhas irmãs reagiram mal, a minha mãe não disse nada, mas acabou por fazer um grande esforço para aceitar. Sempre pensou que tinha sido uma falha na educação."

Quando o namoro acabou, já na Faculdade, Luís percebeu que começava a sentir-se atraído por uma das suas amigas do curso. Parecia-lhe que ela sentia o mesmo, e aquilo perturbou-o. "Não sabia se conseguiria relacionar-me a nível sexual." Contou-lhe: "Não me sentia bem em avançar sem dizer nada. Durante umas semanas, isso baralhou tudo. Depois confessei-lhe que estava apaixonado e começámos a sair juntos." Ao princípio foi difícil. A dúvida se seria ou não capaz de corresponder como homem na intimidade com uma mulher mantinha-se. Depois foi acontecendo e acabou por não ser tão linear. "Eu já tinha feito um percurso com um homem e construído toda a minha identidade sexual nesse percurso e na idade adulta fui confrontado com a heterossexualidade. O corpo feminino era-me estranho e tive de redescobrir a minha sexualidade como se fosse a primeira vez."

Também estranhou a visibilidade que agora este namoro podia ter. Sem segredos nem proibições: "Ao princípio, até andar na rua de mão dada me fazia confusão. Não estava habituado a poder ter demonstrações de afeto no espaço público e a namorar às claras sem constrangimentos. Ao comparar as duas situações, percebi quão injusto é para um casal homossexual não poder relacionar-se do mesmo modo. Achei chocante. Se tivesse continuado com aquele namoro, ter-me-ia casado com ele, agora é permitido." E, antes de se ir embora, diz sem hesitar: "Não procurei a normalidade. Aconteceu normalmente. Não passei de homo a hetero. Simplesmente encontrei o meu lugar da bissexualidade."

"Só há poucos anos é que a bissexualidade começou a ser encarada como uma orientação sexual e não como uma zona de transição", explica Joana Almeida, psicóloga na ILGA. "Por isso mesmo, sofria de dupla discriminação entre homo e heterossexuais, por ser considerada uma forma de não se conseguir assumir o lado homossexual. O mais difícil de aceitar é a indefinição. Ninguém gosta da ambiguidade." Também Pedro Frazão, psicólogo clínico, especializado em questões de género, concorda que, entre todas as orientações sexuais, a bissexualidade é a mais difícil de definir. "Na comunidade académica e científica era entendida como uma imaturidade. A partir do Relatório Kinsey publicados entre 1948 e 1953, a nossa sexualidade começou a ser observada como um mapa que se vai construindo e delineando ao logo da vida, sobretudo no percurso das mulheres", afirma o psicólogo. "É um dado que a sexualidade feminina é mais complexa, e nas mulheres a orientação sexual decorre com maior fluidez do que nos homens."

É in ser 'bi'?

 

Podemos interrogar se a bissexualidade está na moda como tendência entre a população mais jovem, por exemplo, que, livre de preconceitos, é seduzida pela ideia da experiência? "Penso que não", diz Pedro Frazão. "O que acontece é que, em Portugal, a discussão sobre as questões de género têm vindo a conquistar cada vez mais espaço na discussão política. Neste sentido, todas as questões relacionadas com a orientação sexual ganharam visibilidade, o que permite às pessoas sentirem-se mais livres para assumirem as suas escolhas. Não é uma questão de moda."

"A androgenia é uma tendência. A bissexualidade está na moda e vende", diz Alexandra Santos, 24 anos, voluntária na rede ex aequo, a associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros (LGBT). Ela trabalha no Projeto Educação da rede e percorre as escolas do país a debater identidade de género: "A orientação sexual é um tema que se discute muito durante a adolescência, e a bissexualidade tem o apelo de ser interessante: sugere mente aberta, capacidade de experimentar... Mas, para além deste aspeto mais superficial, muita gente tem dúvidas sobre a sua identidade, e a bissexualidade é a caixinha da confusão. Mas não basta ter uma experiência homossexual para se ser 'bi'."

Apesar da tendência e da confusão, Alexandra Santos, assistente social, sabe o que sente. Afirma sem vacilar: "Não traio, não sou promíscua, tenho relações duradouras. Gosto de homens e de mulheres em igual percentagem." Soube que a atraíam ambos os sexos quando entrou na Faculdade e começou a perceber "que aqueles sentimentos giros que sentia pelas minhas amigas não eram só amizade". Aí, sim, a confusão instalou-se. Nada tinha ainda acontecido e já ela desesperava. "Ai, ai, o que vai ser da minha vida? Porque todos desejamos a normalidade. Assusta muito perceber que nem sempre é assim", conta Alexandra, agora descontraidamente sentada num café do Chiado. "Depois de me questionar se não seria só uma fase, fiz uma viagem à Bélgica para participar num programa entre jovens europeus, conheci uma rapariga e percebemos que tínhamos muita coisa em comum. Principalmente a nossa fé. Quando voltei, continuámos a falar no Messenger e combinámos encontrarmo-nos. Namorámos alguns meses entre cá e lá e depois terminou."

Foi nessa altura que se aproximou da rede ex aequo. Queria encontrar outras pessoas que sentissem coisas semelhantes e perceber que identidade era aquela. A questão do pecado preocupava-a. Um dia ouviu esta frase de uma crente: "Deus manifesta-se em cada um de nós quando estamos bem e fazemos bem aos outros." Sentiu que poderia ter essa força e arriscou clarificar. Em casa, começou a espalhar discretamente as revistas distribuídas pela rede LGBT até a mãe perguntar: "Aquelas revistas que trazes cá para casa são o quê?" Alexandra falou na ex aequo e explicou o projeto: "E o teu pai sabe disso?" Nessa noite, ao jantar, com as três irmãs e o pai já sentados à mesa, a mãe voltou à carga: "Tu és alguma dessas coisas?" Ela disse: "Tanto poderia casar com um homem como com uma mulher." A mãe ainda tentou dar um ar de normalidade: "Se fosses homossexual, eu aceitava." O pai disse logo que não aceitava e uma das irmãs perguntou-lhe: "O que é que te deu para dizeres uma coisa dessas aos pais?" Alexandra encolheu os ombros: "Porque é verdade."

Hoje acredita que para a sua família seria menos complicado se ela fosse homossexual. Pelo menos, seria uma coisa só. Agora aquilo assim... "Como é que se consegue gostar de homens e de mulheres ao mesmo tempo? Lá está, a questão da promiscuidade. Mas eu sou monogâmica e não tenho namorados e namoradas em simultâneo." Tenta explicar que cada sexo tem as suas diferenças, e ela gosta dessas diferenças. "Sinto-me atraída por pessoas e não por géneros", diz Alexandra. Depois dá conta da frase e desata a rir: "Este é o verdadeiro cliché dos 'cotonetes', não é?"

Pedro Frazão, o psicólogo, esclarece: "Esse é precisamente o discurso da bissexualidade. Interessa é o que se sente por determinada pessoa, independentemente do sexo. Como há uma maior abertura em relação à homossexualidade, essa abertura reflete-se, naturalmente, nos jovens, e observo que cada vez os discursos são menos estanques em relação aos rótulos identitários. Nestas faixas etárias tem-se, naturalmente, menor dificuldade em definir atrações e experiências e há uma noção cada vez mais clara de que todos os percursos são diferentes."

Os pomossexuais. "Já ouviu falar em pomossexualidade?", pergunta Ruben. Espreitamos a Wikipédia: "Pomossexual é um neologismo que descreve pessoas que evitam rótulos restritos como hetero, homo ou bissexual."

Ruben Santos, Raquel Bravo, Marta Cardoso: 19, 17 e 20 anos, respetivamente. São estudantes associativos e muito empenhados em causas cívicas. Ruben e Marta conheceram-se na Associação do Liceu Padre António Vieira. Raquel é animadora de teatro comunitário e amiga de Marta. Os três afirmam perentoriamente que não gostam de definições: "Os rótulos são muito limitadores. Acredito que, ao longo da vida, qualquer pessoa pode sentir emoções pelo sexo de que é suposto gostar e pelo que é suposto não gostar. Não conheço ninguém da minha idade que não sinta essa atração", conta Marta, referindo o seu interesse por raparigas e a maneira como gosta de viver cada uma das suas relações. Por agora está menos interessada no género masculino. Mas, aos 18 anos, ainda nada precisa de ser definitivo.

Também Raquel Bravo tem dificuldade em usar claramente uma palavra que a classifique: "Sei o que não sou", diz, tentando clarificar. "Não sou hetero, nem homo. Durante cinco anos tive um namoro fortíssimo com um rapaz que morreu e depois a minha relação com os homens mudou. Era como se estivesse a traí-lo. Quando entrei no meio artístico, tive as minhas primeiras relações lésbicas", conta Raquel descontraidamente: "Não quero casos. Quero definitivamente estar com alguém que seja minha e eu dela. Não sei se será um homem ou uma mulher, também não me preocupa. Gostar é simplesmente gostar."

Ruben Santos, o rapaz que também não sabe se é ou não homossexual, tem a teoria de que todas as pessoas, se pudessem, seriam 'bi' e acredita que só não são por uma questão de educação. "Como é que uma pessoa pode dizer sim ou sopas se não experimentou?", interroga. "Se temos várias opções, porquê aceitar uma só?" Excluir, logo à partida, a possibilidade de atração por pessoas do mesmo sexo pode ser uma construção. "Para um rapaz, custa muito aceitar. Cheguei a ter nojo de mim. Fazia-me confusão a ideia de uma relação estável ou de envelhecer ao lado de um homem. Agora, embora ainda sinta algum medo desse quotidiano, já não penso tanto nisso."

Marta, que em breve irá para a universidade e tem ideias muito próprias sobre o amor, conta que nunca se sentiu excluída ou posta de lado quando está com uma rapariga. Os amigos todos sabem e aceitam. Afirma que na sua geração é normal nos liceus os casais homo andarem abraçados: "Ninguém liga. Nem os professores."

Ruben, apesar das dúvidas, por agora não lhe interessa pensar em escolhas. Neste momento, namora com um rapaz. Mas sabe que quer ter filhos seus. E não é só isso: "Gosto do masculino e do feminino. De proteger e de me sentir protegido quando me deito num abraço", reflete.

"A bissexualidade é a zona invisível", diz Joana, a terapeuta. "A ânsia de sabermos o que somos, de nos definirmos, tem a ver com a eterna necessidade de tentarmos perceber porque nos apaixonamos por A ou por B. Nunca sabemos porque nos apaixonamos, e mesmo para a ciência continua a ser um grande mistério."

(Nota - Diana Cruz, Luís Antunes e Marta Cardoso são nomes fictícios.)

Publicado na Revista Única de 29 de Janeiro de 2011

 

Via Expresso



publicado por olhar para o mundo às 21:03 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 18.01.11

Testemunho, eu ou bissexual

Será possível sentir atracção por homens e mulheres ao mesmo tempo ou é a bissexualidade apenas um designação para encobrir a homossexualidade? Falámos com duas mulheres e um homem que abriram o jogo explicaram como é sentir desejo por ambos os sexos.

A bissexualidade sempre existiu ao longo da História, sendo assumida como natural entre os gregos e os romanos. Sarah Bernhardt, David Bowie, Marlon Brando, William S. Burroughs, Lord Byron, Emily Dickinson e Marlene Dietrich são alguns bissexuais famosos. Mas, apesar disso, sempre surgiu a dúvida: existe mesmo a capacidade de sentir atracção por ambos os sexos ou é esta uma falsa questão e na realidade tudo se resume a comportamentos hetero ou homossexuais? Nós fomos falar com quem se assume como "bi" e partilhamos consigo as suas histórias.

"Foi uma espécie de revelação"

"Posso me sentir atraída por um homem ou uma mulher. Para mim é a mesma coisa. O que conta é a pessoa."

Lena, 30 anos, designer de moda, descreve assim a sua orientação sexual, assumida desde que teve a sua primeira experiência sexual com uma mulher. "No meu caso ocorreu como uma artimanha para seduzir o sexo oposto. Toda a minha adolescência foi virada para os homens. A ideia surgiu já era casada, tinha 19 anos, tratava-se de encontrar alguém para termos sexo a três, o que nunca aconteceu. Porém, foi então que comecei a ver as mulheres de uma forma diferente, mais sexual."

 

Foram precisos mais uns anos e um divórcio para Lena passar da teoria à prática, sempre com o objectivo de criar mais interesse junto do namorado da época, ou não fosse esta uma das fantasias mais comuns do sexo masculino. "Este meu namorado tinha numa prima heterossexual, mas que manifestou interesse em experimentar relações com uma mulher e eu achei graça. Fomos apresentadas, envolvemo-nos e foi completamente inesperado, como uma espécie de revelação. Deixei de ver este tipo de experiência como um acto isolado e tive a certeza que ia acontecer o resto da minha vida. O prazer é completamente diferença, mas não subscrevo a ideia que conhecemos melhor o outro corpo. As pessoas são diferentes e vivem a sexualidade de forma distinta, independentemente do sexo, e não posso ver no corpo da outra mulher um espelho do meu."

 

"Sou infiel aos homens com mulheres"

Depois desta primeira experiência, o namoro acabou. "Envolvi-me muito com esta rapariga, talvez por ter sido a primeira. E depois ela trocou-me por outro. E isso é a grande dilema das mulheres e dos homens bissexuais: é que rivalizam com todo o espectro dos seres humanos", salienta Lena.

 

Lena sempre teve relações duradouras com homens, à excepção de um relacionamento de três meses com uma rapariga, mas que não funcionou: "também não funcionaria se fosse um homem porque ela era muito controladora, sendo que pode voltar a acontecer, porque tem mais a ver com ser a pessoa certa do que ser uma mulher ou um homem." Por isso mesmo, Lena gosta mais de falar de plurissexualidade do que de bissexualidade. "Acho que todos nós temos várias sexualidades, que devolvemos ou não consoante os factores sociais e ambientais que nos rodeiam ou por uma questão de coragem ou decisão pessoal. A sexualidade é muito pessoal e devemos explorá-la no grau em que o desejamos."

Actualmente, continua a estar com pessoas de ambos os sexos, mas a namorar com o sexo oposto. "Os homens são um vício, estão na minha carga genética. O problema é que, quando estou numa relação com um homem, continuo a sentir atracção por mulheres. Fica sempre um resto de desejo por concretizar. Normalmente, acabo por ceder e sou-lhes infiel com raparigas. E se ele fica à partida muito agradados com a ideia de uma mulher ser "bi", a partir do momento em que há envolvimento emocional, ainda não conheci nenhum que achasse engraçado, o que também é explicável porque os homens são finitos em termos sexuais e as mulheres não!"

 

Lena optou por não esconder a sua orientação sexual: "todos os meus amigos e colegas de trabalho sabem, não tenho tabus de qualquer espécie. Quando tive uma relação com uma mulher assumi-o da mesma forma como com um homem."

 

"Foi com ela que tive o primeiro orgasmo"

Marta, 33 anos, arquitecta, teve a sua primeira experiência sexual com uma colega da escola, quando tinha 15 anos."Uma noite ela ficou a dormir em minha casa, começámos a brincar aos beijinhos e quando demos por nós estávamos a trocar carícias. A verdade é que foi com essa amiga que comecei a explorar o meu corpo, o que se reflectiu inclusive na forma como depois me relacionei sexualmente com homens, porque já conhecia muito bem o meu corpo." Marta sempre teve consciência de que não era lésbica: "Apesar da minha sexualidade se ter iniciado com uma mulher, sempre me interessei por rapazes e quando tive o meu primeiro namoro o desejo estava lá." Apesar de apenas ter tido namorados, as relações com mulheres sempre estiveram presentes desde então na sua vida, de forma mais ou menos esporádica. "Com estas "amigas" acabo por partilhar uma série de interesses e, de vez em quando, quando nos apetece, também nos envolvemos sexualmente. Por isso mesmo, para mim a bissexualidade existe como orientação sexual distinta. Não sou hetero porque me sinto atraída por mulheres, nem homossexual, porque gosto de homens. Tem de existir uma palavra para me definir e até ao momento essa é a melhor."

"O que importa é a pessoa"

"A questão para mim não é o sexo. É a beleza, o interesse que a pessoa desperta, seja homem ou mulher." Filipe, 23 anos, estudante, assume-se como bissexual desde a adolescência. "Perdi a virgindade com uma rapariga, mas uns meses depois envolvi-me com um amigo do meu irmão, mais velho do que eu, e que achava muito atraente.Desde então, existiram fases em que me sinto mais atraído por mulheres e outras em que os homens predominam." Filipe sempre lidou com a sua orientação sexual de forma natural: "Nunca achei que houvesse alguma coisa errada comigo, mas também aprendi que é mais fácil ser visto como heterossexual. Poupa-me algumas dores de cabeça e por isso guardo as minhas experiências ‘homo' só para mim." Nos planos futuros, Filipe planeia apaixonar-se e construir uma relação sólida, mas não sabe com quem. "Depende da pessoa por quem me apaixonar", diz com um sorriso.

 

"A bissexualidade existe"

A bissexualidade é definida como uma orientação sexual que pressupõem a atracção sexual e emocional por pessoas de ambos os sexos. Mas será real? Para Fernando Mesquita, psicólogo, não há dúvidas de que podemos falar de hetero, homo e bi: "Não podemos considerar que tudo é preto e branco. Porque é que não pode existir o cinzento? Daí fazer sentido falar de bissexuais, pessoas que podem viver esse desejo por fases ou em simultâneo."

 

A sua experiência clínica permite-lhe concluir que, de início, há uma grande confusão: "a pessoa começa a questionar se é ou não homossexual, até porque muitas nem sequer conhecem esse meio-termo. Quando conhece a noção de bissexualidade, enquadram-se nessa orientação sexual. A partir daí, tanto podem escolher uma pessoa do mesmo sexo como do oposto para terem relações mais sólidas, sendo que, no caso dos homens, existe uma questão a considerar: é que com outro homem não pode ter filhos, o que os pode levar a tentar sublimar a parte homo e a investir numa relação com o sexo oposto."

 

"É mais fácil para as mulheres"

Em comum, os bissexuais têm o facto de, mais do que o género, valorizarem a relação e a pessoa. Mas há diferenças quando se fala de homens e mulheres: "no caso delas, a fantasia tão comum entre os homens de estar com duas mulheres e a carga erótica que é atribuída a esse tipo de jogos, pode facilitar esse tipo de experiências. É mais fácil para as mulheres. Por exemplo, quase todos os filmes pornográfico têm uma cena entre duas mulheres, mas não entre dois homens. Por outro lado, há uma certa curiosidade, até porque já se tornou público que era bom, chegando algumas a dizer que não o fazem porque têm medo de não voltar. No caso dos homens, mais facilmente são apelidados de homossexuais."

Mas no fundo trata-se de completar diversas necessidades: "um homem quando está com uma mulher tem por tradição de assumir um papel dominante, enquanto se estiver com outro homem pode abandonar esse papel; já as mulheres sentem que a relação é muito mais afectuosa, assente sobretudo em carinho, quando estão com outra mulher".

 

 

Estará na moda?

"Cada vez mais há variantes da sexualidade, como é o caso do poliamor, uma relação entre três ou quatro pessoas, que vivem juntas. Vai sempre haver conjugalidade entre homem e mulher e procriação, mas hoje há uma maior abertura para outras formas de sexualidade. Por isso não acho que seja a bissexualidade que esteja na moda, mas sim a sexualidade em novas formas", esclarece Fernando Mesquita.

 

 

Os números mentem?

Na sociedade ocidental, o primeiro estudo que chamou a importância para o relevo que a bissexualidade tinha nos comportamentos individuais foi o Relatórios Kinsey, publicado em 1948 e 1953. Kinsey chegou à conclusão que um sector significativo da população americana possuía tendências bissexuais, mostrando que esta orientação sexual é, possivelmente, muito mais comum do que se pensa. O relatório media a atracção e o comportamento sexual numa escala de 0 a 7, sendo que 0 era exclusivamente heterossexual e 7 exclusivamente homossexual. Ora, muitas pessoas ficaram na escala entre 1-5, sendo que 46% da população masculina teria tido experiências sexuais quer com homens como com mulheres, ao longo das suas vidas.

Já em 2002, um estudo do National Center for Health Statistics chegou à conclusão que 1,8% dos homens entre os 18 e os 44 se consideravam bissexuais, 2,3% homossexuais e 3,9 como "outra coisa". O mesmo estudo apurou, quanto às mulheres, respectivamente 2,8, 1,3 e 3,8. The Janus Report on Sexual Behavior, de 1993, mostra que 5% dos homens e 3% das mulheres se considera bissexual e 4% de homens e 2% de mulheres se considera homossexual.

 

 

Prazer a dobrar?

Tudo parece indicar... que sim. Diversos estudos procederam à comparação entre bissexuais, homossexuais e heterossexuais e concluíram que os primeiros apresentam taxas mais elevadas de actividade sexual, alem de terem mais fantasias. Por outro lado, tem menos casamentos e relações felizes.

 

Será este o futuro?

Segundo Umberto Veronesi, um cientista italiano a espécie humana está a evoluir para a bissexualidade"como resultado da evolução natural das espécies, sendo que o homem está a perder as suas características e tende-se a transforma-se numa figura sexualmente ambígua, enquanto a mulher se está a tornar-se mais masculina. Desta forma, a sociedade evolui para um modelo único. Na opinião do cientista, o sexo no futuro será apenas um gesto de demonstração de afecto e não terá fins reprodutivos. A comprová-lo, aponta o facto de, desde o pós-guerra, a vitalidade dos espermatozóides ter registado uma diminuição de 50% .

 

Apenas uma fase?

De acordo com um estudo publicado no jornal do American Psychological Association, a bissexualidade entre mulheres não é apenas uma fase. Neste estudo foram seguidas 79 mulheres que se definiam como não heterossexuais durante dez anos, tendo-se chegado à conclusão que as experiências com outras mulheres não se restringem à adolescência, mas continuam a ocorrer ao longo dos anos. Desta forma, a bissexualidade é uma orientação sexual e não um estádio temporário.

 

Via Activa



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