Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Um olhar sobre o Mundo

Porque há muito para ver... e claro, muito para contar

Porque há muito para ver... e claro, muito para contar

Um olhar sobre o Mundo

21
Out09

MÃE, PAI, JÁ NÃO SOU VIRGEM!

olhar para o mundo

Os pais e o sexo

 

 Vários amigos de ambos os sexos, portanto neste caso tanto pais como mães, dizem-me que os filhos também de ambos os sexos lhes contaram quando perderam a virgindade.

Embora cá em casa o sexo esteja longe de ser pecado ou tabu, nunca imaginei essa cena da/o filha/o a vir ter connosco para celebrar a primeira queca...
Eu própria nunca fiz a participação aos meus pais da minha estreia sexual, pois por muita intimidade e abertura que haja, os pais são sempre pais e não propriamente camaradas de café.
Embora falar de sexo com os filhos seja saudável, também não lhes quero violar a privacidade. Há uma linha divisória entre a familiaridade e a privacidade que não deve ser forçada, acho eu. É um direito dos próprios filhos e uma questão de respeito da parte dos pais.
Portanto, fiquei parva com essa onda de confidências em que os pitos e pitas contam logo numa nice aos pais que estiveram no truca-truca, sem recear o habitual questionário pedagógico que compete aos pais sobre se foram responsáveis, se foi sexo seguro, se não se precipitaram, se agora vai ser sempre a bombar.
Agora esclareçam-me se vocês foram a correr contar aos vossos pais a 1ª vez que tiveram sexo e se os vossos filhos, sobrinhos ou filhos dos amigos acham assim tão cool partilhar com os pais as suas cenas de marmelada!

 

Via Intervalo para café

26
Set09

Não me apetece... outra vez. Quando a morte do sexo dita o fim da relação

olhar para o mundo

A morte do sexo

 

Parecem um casal normal. Quem vê Maria e André (nomes fictícios) na rua - cúmplices e de mãos dadas - não imagina que, desde que se casaram, em 2007, quase não têm sexo. Ela recorda que, quando namoravam, o sexo existia. "E era óptimo." Ele diz que não consegue "arranjar explicação". Ela admite que não sente vontade. "E das poucas vezes que ele tenta, tento desviar-me de forma subtil", confessa. Ele defende-se e prefere acreditar que é "uma fase". "Uma fase que dura dois anos?", pergunta ela. E silêncio. Desde o início do ano, Maria e André só tiveram sexo duas vezes. No mês passado, resolveram procurar a ajuda de um sexólogo. 

O argumento desta história é familiar a muitos casais. Ao final do dia, depois do trabalho, a luz do quarto é perfeita, a cama confortável, os protagonistas estão a postos e conhecem o guião. Mas, na hora do filme, há qualquer coisa que não funciona. Sucedem-se as desculpas habituais. "Talvez amanhã", "Deixamos para depois", "Estou cansado". Um quer, o outro não. O que quer fica ofendido. O que não quer sente-se pressionado. O que quer sempre deixa de tentar. "E quando voltam a ter sexo a pressão é grande, é rápido e fica longe de ser bom", explica a sexóloga Marta Craw-ford - que recebe pedidos de ajuda de casais que já não têm sexo há muitos meses e até anos. "A dada altura, nenhum dos dois está para fretes e cada um trata de si. Desaprende-se de começar a fazer amor e as pessoas tornam-se estranhas", conta. 

Porque morre o sexo? O cansaço, o stresse e as preocupações profissionais estão no topo da lista de queixas dos casais que perderam o desejo sexual. E são os piores inimigos de uma relação. "A prioridade das pessoas, hoje, é o trabalho. O sexo e o tempo a dois vem em último lugar", explica a sexóloga. Por isso, a esmagadora maioria dos casais só tem sexo aos fins-de-semana. "Dizem--me frequentemente que depois de um dia de trabalho, só lhes apetece ver as séries da Fox e comer bolachas", conta. 

Os filhos também podem acabar com a vida sexual. "Especialmente quando os pais caem no erro de os deixar dormir com eles até serem crescidos, o que mata os momentos de intimidade a dois", refere o psicólogo Fernando Mesquita. "O casal esquece-se que antes de serem pais são um casal", acrescenta Marta. Quadros clínicos depressivos e factores orgânicos e hormonais - como a falta de testosterona - são outras razões que acabam com o desejo sexual. Nestes casos, o acompanhamento médico é imprescindível e pode ser necessária medicação. 

A lista não acaba aqui. A gravidez também mexe com a intimidade. "Muitos casais ainda acreditam que ter sexo durante a gravidez é nocivo", garante Marta Crawford. Mas, a menos que exista indicação médica em contrário, o sexo pode e deve continuar até ao parto. "Embora haja posições, como a de missionário, que se tornam mais desconfortáveis", reconhece a sexóloga. Na gravidez, é frequente que as mulheres façam infecções urinárias depois do sexo. "E isso torna--se desconfortável para a mulher."

Sexo não é só coito A penetração, explica Marta Crawford, é só uma das muitas versões do sexo. "Para um casal ter a sua intimidade não tem de recorrer, necessariamente, ao coito." A sexóloga recomenda o sexo oral e a masturbação a dois. "E a maior parte das mulheres até prefere a estimulação clitoridiana à penetração", acrescenta. Fernando Mesquita sublinha que a sexualidade de um casal "tem muitas vertentes e a descoberta deve ser feita a dois". 

O problema da abstinência sexual só é, realmente, um problema se um dos parceiros não se sentir bem com a situação. Marta Crawford exemplifica: "Se um homem ejacular rápido, mas encontrar uma mulher que também atinja o orgasmo depressa, corre tudo bem. Há casais que não têm sexo, mas que vivem bem com isso e encontram o seu equilíbrio." Dito de outra forma, a ausência de sexo só se torna, verdadeiramente, num problema quando existe um contraste entre os parceiros - quando um quer e o outro não. 

Reacender o desejo "Na terapia digo aos casais que têm de arranjar tempo. Aconselho-os a estarem juntos três a quatro vezes por semana, mas quando voltam ao consultório, 15 dias depois, a maioria conta que só conseguiu estar uma vez e que mais é impossível", explica a sexóloga. Só que o tempo a dois é importante. E a comunicação também. "Falar sobre o assunto é fundamental, a falta de desejo pode facilmente tornar-se um hábito", alerta Júlio Machado Vaz. "Deve falar-se sobre o que não está bem, sem ter medo da reacção do outro. A ideia de que o amor adivinha tudo é um mito", acrescenta Marta Crawford. Há que perceber o que se pode melhorar para que o parceiro se sinta melhor. "Mais beijos ou mais carícias, em vez de se partir logo para o coito. Há muitos homens, por exemplo, que não percebem que a mulher precisa de ser tocada", refere a sexóloga. 

Procurar ajuda Há casais que procuram ajuda um mês depois de identificarem o problema. Outros só recorrem à ajuda especializada 20 anos depois. Marta Crawford adianta que são precisas "pelo menos seis sessões, de quinze em quinze dias" para que o problema possa ser solucionado. Fernando Mesquita adianta que a intervenção é feita em três níveis: comunicação, auto-estima e intimidade. "Começa-se por desmitificar preconceitos, identificar as origens do desinteresse sexual e muitas vezes o casal só precisa de receber informação clara", explica a Marta Crawford. No consultório, os casais experimentam terapias sensoriais, vencem vergonhas e medos. Levam trabalhos de casa e prescrições que devem ser cumpridas à risca. "Reencontram-se através de carícias, sessões de massagens a dois e por vezes recomenda-se-lhes que evitem tocar-se nos sítios mais sexuais", explica a sexóloga. "O fim do sexo não significa o fim da relação porque o casal não deixa de existir enquanto tal e não é por isso que deixam de ser amar", explica Fernando Mesquita. Até porque, como refere Júlio Machado Vaz, "a intimidade do casal vai muito além da intimidade física".

 

Via ionline

24
Set09

Pense duas vezes antes de dar um nome bizarro ao seu filho

olhar para o mundo

Pense bem antes de escolher o nome do seu filho

 

 Tem 22 anos e chama-se Zoé. A culpa é dos pais. E, na verdade, até teve sorte. O plano inicial era outro. Zoé esteve para se chamar Tamagnini, mas a mãe não deixou. Vítor Silva, o pai, descobriu a segunda opção num prontuário e não esteve com meias medidas: foi sozinho ao cartório e registou o nome sem a mulher saber. Na família Silva, Zoé não é o único que tem um nome diferente. 


A irmã, de 25 anos, chama-se Andresa. Agora, a diferença até passa despercebida, mas na escola primária Zoé não conseguiu evitar as piadas das outras crianças. "O maior problema eram as rimas que dava para fazer com o meu nome, como chulé e outras coisas desagradáveis", recorda. Um dia, fartou-se. Chegou a casa e disse ao pai que era gozado. "Ele disse-me para não ligar, mas eu só pensava que a culpa era dele e que era fácil falar... afinal de contas não era o meu pai que tinha de lidar com os miúdos todos os dias", conta. Por isso, Zoé teve de encontrar as suas próprias tácticas para resolver o problema. "Todos os nomes, mesmo os mais convencionais, davam para fazer rimas ainda piores, como João. E se não me lembrasse de nada na hora, ia para casa pensar e no dia seguinte lançava a bomba. Quando não encontrava rimas, tinha de me calar e esperar que a piada caísse no esquecimento."

A importância do nome Na infância, o nome próprio assume um papel extremamente importante no crescimento. É o primeiro bilhete de identidade da criança e uma característica que a acompanhará para o resto da vida. "Os nomes não condicionam", sublinha o psiquiatra Daniel Sampaio. "Mas influenciam as crianças e disso não há dúvida." Numa altura em que a criança está a construir a sua identidade, o nome "é determinante na maneira como estabelece a primeira ligação ao mundo social", refere o psiquiatra. Por isso, quando o nome é demasiado invulgar, é frequentemente alvo de críticas "dos colegas e até dos professores". Ao invés, quando o nome transporta a referência a um antepassado da família de quem a criança tem uma imagem feliz, "estabelece-se uma influência positiva". 

E agora? Bato-lhes? O pediatra Gomes Pedro diz que é nesta guerrilha que a criança "constrói a sua afirmação e a sua auto-estima". Apesar disso, Rita Jonet, psicóloga infantil, acredita que os nomes, por si só, não são factores de exclusão social. "Tudo depende do clima da escola. Se a troça e a ridicularização forem comuns então tudo é pretexto para se gozar o próximo, até os nomes", explica. 

Mas há outros factores que interferem na socialização na infância como "a maneira de vestir, de falar ou de brincar". Os adultos, sublinha a especialista, têm um papel fundamental neste processo, "porque são modelos essenciais na aceitação das diferenças". Assim sendo, os pais têm mesmo de saber lidar com o problema. Gomes Pedro refere que a maior parte das crianças tenta esconder, em casa, que é ridicularizada e "quando conta aos pais é porque está realmente fragilizada". A eles cabe "prepará-la para que possa construir, a partir destes percalços, a sua auto-estima". Se as investidas dos colegas forem muito frequentes, então é hora de contactar a direcção da escola, "que deve pôr termo à situação". Até porque, como refere Daniel Sampaio, "a escola por vezes é violenta, tal como a sociedade o é". A criança nunca deve mostrar que fica afectada ou melindrada com as piadas dos colegas. Daniel Sampaio sugere várias técnicas que os pais podem transmitir aos filhos: "Deve contra-atacar e responder aos insultos com humor, um grande sorriso e até com orgulho por ser diferente." 

Cristiano Ronaldo? Esqueça Se está a pensar chamar o seu filho de Cristiano Ronaldo ou Alexandre, o Grande, esqueça. Daniel Sampaio avisa que não é boa ideia atribuir nomes de figuras demasiado conhecidas às crianças - que vão ter sempre de conviver com a sua sombra. 

"Traz-lhes grandes expectativas e uma pressão constante. Se um miúdo se chamar Cristiano Ronaldo e jogar mal à bola na escola será, certamente, ridicularizado", exemplifica. Pressões assim podem acarretar insegurança, ansiedade ou agressividade. O ideal é optar por nomes que "não se distingam muito dos da moda, mas que, obviamente, sejam do gosto dos pais". Deixando, então, de parte nomes mais espalhafatosos ou excêntricos.

Escolher o nome do filho é uma tarefa que requer muita ponderação. Alguns estudos demonstram que crianças com nomes estranhos têm notas piores e são menos populares do que os seus colegas na escola primária. No ensino superior têm mais hipóteses de chumbarem e de virem a sofrer de neuroses. Mas estas conclusões nunca reuniram o consenso dos investigadores. Os economistas Roland Fryer e Stephen Levitt defendem que estas consequências derivam não só do nome, mas de muitas variáveis socioeconómicas. 

"Os nomes só têm influência significativa quando são a única coisa que se sabe sobre a pessoa", escreveu Martin Ford, psicólogo do desenvolvimento da Universidade George Mason. Contudo, a brasileira Regina Obata, que escreveu "O Livro dos Nomes" defende que os pais devem mesmo ter atenção aos nomes que escolhem. "É um atributo involuntário imposto pelos pais aos filhos e que pode abrir e fechar portas durante a sua caminhada. Deve sempre pensar-se se o nome não poderá submeter o filho a futuros problemas - quer por ser foneticamente desagradável, quer por ter um significado extravagante ou excêntrico." 

Regras Em Portugal, o nome deve ter, no máximo, seis vocábulos em que os dois primeiros podem corresponder ao chamado nome próprio (ex. António Manuel) e os restantes ao chamado apelido ou sobrenome (ex. Soares Costa Fonseca Rocha). Os nomes próprios devem ser portugueses e admitidos pela onomástica portuguesa (catálogo de nomes próprios) ou adaptados fonética e graficamente à língua portuguesa e não devem suscitar dúvidas acerca do sexo. Os apelidos são escolhidos entre aqueles que os pais usem (os que pertençam a ambos ou a só um dos pais) ou outros a que os mesmos tenham direito, como por exemplo o apelido do avô que não conste do nome do pai.

 

Via ionline

27
Jul09

Eles adoptaram as crianças que ninguém quer

olhar para o mundo

  Miguel não sabe distinguir as cores nem agarrar num lápis. Tem cinco anos e parece que acabou de nascer. Nada lhe foi ensinado. Foi assim que entrou para uma instituição de acolhimento, depois de ser retirado à família biológica por negligência, em 2006. Diagnóstico: perturbação do espectro do autismo. A Segurança Social dizia que não havia pais candidatos ao Miguel. Mal conheceram a história, Mara e Carlos, que queriam uma criança até aos cinco anos, não se importaram que Miguel tivesse mais três. Nem precisaram de ver uma fotografia para saber que não queriam outra criança, só aquela. "Já não olhámos para a idade dele, nem para os relatórios clínicos. Pensámos: 'Ele está aqui e é nosso'"


Yannick, nove anos, negro, maçãs do rosto levantadas, óculos de massa azuis, gargalhada aguda e estridente que fica no ouvido. Estava há dois anos numa instituição à espera de ser adoptado até que João, 33 anos, solteiro, depois de passar com ele os Natais e alguns fins-de-semana decidiu que Yannick iria ser o filho que nunca tinha pensado ter. 

Filipe esperava há cinco anos por um pai e uma mãe. Vários problemas de saúde - complicações cardíacas, fenda palatina, alergia ao glúten, hiperactividade, défice de atenção, ligeiro défice cognitivo - condenavam-no à lista imensa dos menos procurados para adopção. Ana sempre desejou adoptar, ouviu um apelo para a adopção do Filipe e no primeiro dia em que ela e o marido o levaram para almoçar, ele conquistou-os. "Foi ele que nos adoptou primeiro. Lembro-me dele, muito pequenino e franzino, eu até dizia que ele não podia ter a idade que realmente tinha, a sair a correr para contar aos amigos: ?Aquele é o meu pai!?" Os primeiros tempos foram uma correria, entre terapias e operações. 

Pedro foi abandonado no hospital. Tinha três anos e a sentença de um futuro passado em instituições - como acontece à maioria das crianças seropositivas em Portugal. Até os papéis do processo andavam perdidos. Paulo não lhe viu o rosto, nem sequer sabia o nome. Passou meses "a acordar a pensar naquela criança e a atirar para canto". Mas estava rendido. Oito meses depois, decorou um quarto para o Pedro na casa do Porto e deu entrada dos papéis para adopção. "Perguntavam-me: ?Não tens medo? E se ele morre??, como se todos não pudessem morrer. Tinha sempre de lembrar que ser seropositivo é ter uma doença crónica e que há doenças crónicas bem piores." 

Só o Yannick A boca cor-de-rosa de Yannick abre-se num sorriso alegre. "Tira a mão da boca", avisa João, e logo Yannick responde: "Mas o pai também rói!" Está sentado no sofá e finge-se distraído em jogos de computador, mas está suficientemente atento para se intrometer nas respostas do pai. "Há quanto tempo está com o Yannick?" "Há quatro anos", antecipa-se Yannick, que logo põe os joelhos junto ao queixo e balança-se. 

João era voluntário da Ajuda de Berço, onde conheceu o Yannick com dois anos. Começou a levá-lo para casa em ocasiões especiais. A certa altura, adoptar o Yannick era inevitável. "Tudo foi acontecendo, não apareceu do nada. Nem sequer houve um período de adaptação porque ele já era aqui da casa", conta. Por isso, quando se virou para Yannick e lhe disse "O Caca [o nome que Yannick chamava a João] vai ser o teu pai", Yannick nem ligou. Só perguntou se podia ir brincar e desatou a correr com os calcanhares a baterem nas pernas. Exactamente nove meses depois de João ter dito à Ajuda de Berço que queria adoptar Yannick, ele entrou definitivamente naquela casa perto de Santa Apolónia, em Lisboa.

"O meu caso é diferente dos outros. Não quis adoptar uma criança, quis adoptar o Yannick. É uma história de sucesso. Pode servir de exemplo aos que esperam anos porque querem as crianças que dizem ser perfeitas ", diz João. 

"Simpático, bom, trabalhador, gordo, sem jeito para jogar futebol e asneirento", assim o descreve entre risinhos e cócegas o filho Yannick. Nunca se importou de ter um filho negro: "Era-me indiferente ser amarelo, roxo, às bolinhas." Continuam a fazer visitas à Ajuda de Berço e Yannick pede um irmão. E quando perguntou pela primeira vez "como os bebés vão parar às barrigas das mães", João explicou-lhe exactamente como era. Yannick respondeu, de boca torcida: "Ai, que nojo. Assim não quero. Vou buscar os meus filhos à Ajuda de Berço." 

Autismo Mara e Carlos já tinham a filha Nicole, mas Mara, que desde miúda sonhava adoptar uma criança e tentava convencer a mãe a fazê-lo, mostrou a Carlos que aquele era o momento perfeito: "Já não tinha necessidade de ter um bebé. Se era para ir buscar uma criança, só fazia sentido ser mais crescida, se não era mais rápido passar por outra gravidez." Mara e Carlos candidataram-se à adopção de um rapaz até aos cinco anos. Tinham três anos de espera pela frente, disseram-lhes. Alteraram para os sete: "Não esticámos mais a corda porque queríamos que a Nicole e ele crescessem juntos." Num encontro sobre adopção falaram-lhes de "um rapaz de oito anos que ninguém queria adoptar". Assim, com estas palavras. Depois do primeiro encontro, Mara e Carlos ponderaram a sós e decidiram: "Não importa se tem mais um ano, é ele que vai ser o nosso filho." Vieram dois meses de visitas, três a quatro vezes por semana, sempre com choros nas despedidas. E o Miguel a reclamar: "Ó mãe, não me podes chamar Miguel. É filho e não Miguel."

Mara não sabia bem o que era o autismo. "No início, nem reparei nas pequenas coisas. Como não o acompanhei desde bebé, não sabia o que era normal. Não sabia o que ele sabia ou não fazer." Miguel tem nove anos, mas age como uma criança de cinco. Tem, sobretudo, dificuldades temporais. "Se eu disser que vai acontecer alguma coisa amanhã ele pergunta: ?Isso é quando acordares, não é??", conta a mãe. Esquece-se facilmente do que fez e fala sobre os presentes que lhe deram em conversas sem contexto. "De resto, tudo é igual. Toma medicação, mas vai ao médico uma ou duas vezes por ano, como outra criança."

Miguel tem um rosto em V e é tão parecido com o pai adoptivo, Carlos, como Nicole é parecida com a mãe biológica, Mara. "Ninguém diria que não veio da minha barriga", brincam. Miguel usa o lápis para fazer girar a tampa de um espremedor, agarra-se ao pescoço da mãe e enche-a de beijos. Na cara, nos braços, outra vez nas bochechas e mais um apertão. Seis meses depois de o Miguel - que desmonta tudo o que tem parafusos e diz que quer ser "arranjador de máquinas de lavar" - ter entrado lá em casa, Mara e Carlos sentem que tudo mudou para melhor. "Veio completar a nossa casa. Está muito mais irrequieta. E depois fomos pais, realizámos o nosso sonho pela segunda vez." Nicole reclama o colo da mãe com Miguel, que se despede a fazer bolinhas com as migalhas dos bolos. 

 

Via Ionline

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D