Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Caçadores de infedilidades

 

Nem todos foram fadados para serem detectives privados. Senão haveria homens de gabardina e escritórios fumarentos em cada esquina e a cidade seria a preto-e-branco, como nos filmes noir dos anos 40. Espiar a própria mulher, mesmo que as suspeitas de infidelidade cresçam até se tornarem tão óbvias que só apetece dizer 'dah, acorda para a vida!' não deve ser fácil, supomos.

Basta imaginar as perguntas existenciais que faz um marido desconfiado a partir do momento em que ele decide sair de casa, de óculos escuros e chapéu de feltro - Ok, estamos no século XXI, pode ser um boné de basebol - e meter-se num táxi, atrás do carro da esposa, que pela terceira vez numa semana combinou um copo com as colegas do trabalho nas docas: "E se ela me descobre?", "E se afinal vai ter mesmo com a Tareca e a Nuxa?"; "E se o acelerado do taxista bate nas traseiras do Renault, escondo-me no banco de trás enquanto eles discutem sobre quem tem a culpa?" E se ela estacionar, não perto das docas mas entrar numa garagem de um prédio das avenidas novas? O que prova isso? "Pode andar simplesmente numa consulta nocturna de astrologia", defender-se-ia o marido, perante o olhar de tédio do taxista.

Rebobinando. Em 2009, há métodos mais fáceis, e não menos infalíveis, para descobrir a (tão temível) verdade. Foi por isso que nos pusemos a pesquisar na Internet. E foi por isso que, depois de uns cliques no Google, comprámos um kit, o Checkmate, que até tem o nome da jogada final, e decisiva, de um jogo de xadrez. Teoricamente, com umas gotas e uns pozinhos é possível tirar as teimas, sem ser preciso ser um Kasparov. Faz lembrar o CSI, mas sem o glamour da série. Aqui não há batas brancas, nem detectives (voltamos a eles) com palavras sábias, que em dois intervalos e em 50 minutos descobrem o culpado através dos vestígios de ADN.

Depois de aberto o pack, que nos foi enviado pelo correio, faltava o mais difícil: convencer alguém a usá-lo para saber se resultava. Ou seja, uma cobaia. O trabalho não podia ser mais espinhoso. As nossas 'fontes' fugiram, não a sete mas a oito pés, mesmo com a garantia de que lhes alterávamos a identidade. "Mas porque me escolheu a mim? O meu casamento está de pedra e cal", a resposta não poderia ser mais clássica. Mesmo depois de alguém nos garantir que 'Carlos' (sim, não era o nome verdadeiro) há muito que desconfiava que a mulher andava a 'pular a cerca', (expressão duvidosa made in Brasil). Ao fim de dezenas de telefonemas e e-mails, lá emprestámos um dos frascos a um amigo de um conhecido que nos havia sido aconselhado por um ex-colega. Confusos? Também nós.

A experiência não poderia ser mais desastrosa. Uma semana depois, via e-mail, o tal amigo do conhecido, etc, etc, confessou-nos que à última hora não teve coragem para deitar as gotas numa peça de roupa interior, onde supostamente poderia ser detectado o sémen do amante. Nem com as nossas palavras de compreensão, e incentivo, o tal contacto não nos voltou a contactar, pelo menos até ao fecho da edição. Se ele estiver a ler isto, deve estar a encolher-se todo, ou então a rir-se às bandeiras despregadas, pois lá conseguiu enganar à grande um jornalista.

Esgotados os argumentos, decidimos enveredar pela jogada clássica. Contactámos a empresa que vende o produto em Portugal - e se vendem, pois segundo o seu representante, cerca de 300 pessoas por mês, bastante mais homens do que mulheres, compram o kit da infidelidade - e pedimos para nos fornecerem os contactos de alguns clientes para nos relatarem as suas 'investigações'. Mais um tiro bem longe do alvo. Grande parte dos tais clientes compra o Checkmate por telefone, muitas vezes através de um número não identificado, e pedem para lhes enviarem a encomenda para anónimos apartados. Aqueles que enviam os pedidos por e-mail pedem a todos os santinhos e mais alguns o máximo de sigilo. O argumento do "não publicaremos os nomes verdadeiros" revela-se tão certeiro como um remate do Nuno Gomes à baliza.

Veja o resto da noticia aqui

Via Expresso



publicado por olhar para o mundo às 07:27 | link do post | comentar

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