Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

 

historiador refere a relação entre a rainha D. Amélia e a condessa de Figueiró

Mulheres que amaram mulheres em Portugal ao longo dos séculos. "Filhas de Safo" é um trabalho do historiador Paulo Drumond Braga que sistematiza a memoria do lesbianismo em Portugal até ao início do século XX.As mulheres que amaram mulheres em Portugal, ao longo dos séculos. Filhas de Safo é um trabalho do historiador Paulo Drumond Braga que sistematiza a memória do lesbianismo no país até ao início do século XX. Uma viagem pelos arquivos e pela literatura portuguesa.

 

 

A abordagem é historiográfica e resulta de anos de investigações. Filhas de Safo Uma História da Homossexualidade Feminina em Portugal, de Paulo Drumond Braga, é isso mesmo: um ensaio sobre a história de relações sexuais e afectivas entre mulheres, em Portugal, desde a Idade Média até ao início do século XX.

Editado pela Texto Editores, este livro sistematiza com rigor histórico as referências, que permaneceram até hoje, sobre mulheres que amaram e desejaram mulheres ao longo da História de Portugal. E cuja memória ficou na literatura ou nos arquivos, da Inquisição e das autoridades civis, quer sejam policiais ou médicas.

O cuidado académico que Drumond Braga põe neste ensaio não o densifica nem o torna chato. Pelo contrário, o livro lê-se com facilidade e está apresentado de forma atraente, embora sem facilitismos. Simplificações apenas uma e logo de início explicada pelo autor. Decidiu fugir a polémicas "pura e simplesmente estéreis, como o de saber se se incorre ou não em anacronismo ao utilizar termos como homossexualidade ou lesbianismo, uma vez que este só surgiu no século XVI e aquele em Oitocentos". E não esconde que o faz para chegar mais directamente ao leitor comum, ou seja, "por comodidade de linguagem" (p. 12).

Punir a homossexualidade

Escrito ao longo do último ano, o livro beneficia de um largo espólio de documentos com os quais Drumond Braga se foi deparando ao longo de outras investigações que fez até hoje. Os primeiros documentos encontrou-os a propósito da sua tese de doutoramento sobre a Inquisição nos Açores, explicou ao P2.

É esse importante acervo que este investigador divulga. A começar pelos mais antigos registos sobre relatos de lesbianismo em Portugal, nas medievais cantigas de "escarnho e maldizer". Nesse contexto, lembra Afonso Eanes de Cotom, que escreveu sobre Maria Mateus: "Mari" Mateu, Mari" Mateu,// tan desejosa ch" és de cono com" eu!" (p. 23). 

Ou já no século XV no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, em que um poema fala sobre uma dama de honor acusada de beijar D. Guiomar de Castro, filha do primeiro conde de Monsanto (p. 27).

Mas o livro de Drumond Braga não é um inventário de mulheres que tiveram relações com mulheres, é sim uma obra historicamente contextualizada que lembra passos fulcrais na história da sexualidade europeia. Assim, o autor frisa que "nos finais do Império Romano, sob o impacto do cristianismo triunfante, tudo mudou em matéria sexual. A finalidade única da actividade sexual passou a ser a perpetuação da espécie. Para além disso, terminou a dicotomia activo-passivo, introduzindo-se uma outra, masculino-feminino" (p. 19). E prossegue: "Em 342 foram proibidos os casamentos entre pessoas do mesmo sexo e em 533 a pena de morte foi pela primeira vez prescrita no Ocidente, pelo imperador cristão Justiniano, para contactos homossexuais masculinos. No século VII, penas de grande severidade foram igualmente impostas na Península Ibérica visigótica." (pp. 19/20)

Sublinhando que "alguma tolerância existiu, contudo, até ao derradeiro quartel do século XII" (p. 31), o autor explica que "o III Concílio de Latrão (1179) determinou que todo aquele que pecasse contra a natureza seria excumungado" (p. 31). É no século XIII que surge a legislação real punitiva da homossexualidade, como a do rei de Castela, Afonso X, que também abrangia mulheres. 

Em Portugal, as penas para homens entram nos códices com Afonso IV, em 1355. E em 1499 com Manuel I, são aplicadas também às mulheres. No século XVI o poder real português divide estas condenações com a Inquisição.

 

Um quadro penal que no século XVIII muda na Europa. "Em 1791, o código penal produzido pela Assembleia Constituinte da França revolucionária omitiu a homossexualidade das ofensas merecedoras de punição, o mesmo tendo feito, em 1810, o chamado Código Napoleão, modelo para vários códigos penais de outros países europeus de Oitocentos, entre eles Portugal." Assim, o Código de 1852 só prevê o atentado ao pudor. A criminalização volta apenas em 1912, com a lei sobre vadios e mendicidade da Primeira República.

Figuras famosas

Mostrando como, ainda que condenadas por influência do cristianismo na Europa, as relações entre mulheres eram uma realidade, Paulo Drumond Braga cita várias figuras históricas como Catarina de Médicis (1519-1589), mulher de Henrique II de França e mãe dos reis Francisco II, Carlos IX e Henrique III. Esta mulher é referida no livro Vie de Dames Galantes, publicado em 1666, e onde, "pela primeira vez, a expressão lesbianismo surgiu como sinónimo de homossexualidade feminina". (p. 38)

Outro caso histórico famoso que o autor nomea é o de Cristina da Suécia - a figura que está na base do emblemático filme Rainha Cristina, com a actriz Greta Garbo, também ela lésbica. "No século XVII, foi a vez de Cristina (1626-1689), rainha reinante da Suécia (1632-1654), que sempre se recusou a casar e, depois da sua abdicação, juntou-se, em Roma, ao seu suposto amor de sempre, a condessa Ebra Sparre", escreve o historiador. (p. 38)

E claro que não deixa de referir o caso da última rainha de Portugal, Amélia de Orleães, e da sua relação com Josefa de Sandoval y Pacheco, condessa de Figueiró, conhecida como Pepa Sandoval.

 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 21:03 | link do post

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