Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

Modelismo

 

A lista de espera para os cursos de modelismo de arqueologia naval no Seixal já vai em 60 alunos. Aqui não se fazem barquinhos com fósforos. É um hobby à séria, com rigor e história

 

Não há lugares suficientes para a quantidade de carros que estão no Núcleo Naval do Ecomuseu Municipal do Seixal, na Arrentela. Procuramos bloquear o menor número de automóveis e respiramos de alívio porque a EMEL não ataca aqui. Terminamos a tarefa entalando apenas três carros. Pelas janelas da casa de madeira vemos um grupo de pessoas concentradas a lixar madeira e a colar com precisão pequenas peças. O avô do Pinóquio ia roer-se de inveja desta oficina. Mas aqui não se fazem brinquedos de miúdo. Tudo é feito à escala matemática e dois mundos distintos, o modelismo e a arqueologia naval, demonstram que os casamentos são possíveis. 

Alunos com batas, outros com lápis atrás da orelha, estão em pé à volta da mesa de trabalho repleta de objectos de carpintaria. O professor Carlos Montalvão anda pela sala a esclarecer dúvidas. No meio do grupo destaca-se uma senhora elegante, de cabelos claros e mãos finas. Margarida Gaia é a única mulher do curso de modelismo de arqueologia naval e está tão concentrada que mal dá pela nossa chegada. Na outra ponta da sala, está o ex-ministro da comunicação social do V Governo Constitucional, João António Figueiredo. Reformado, com 74 anos, gosta tanto do curso que em casa está a fazer outro barco. "Isto é viciante. Construir uma obra destas a partir de uma tábua de madeira, é fascinante. Comecei a fazer um bacalhoeiro quando era novo. Depois deu-se a guerra, fui para Angola e nunca mais voltei a isto." 

Desde 2009 que se realizam os cursos de modelismo de arqueologia naval no Ecomuseu Municipal do Seixal. Todos com lista de espera. Este é o terceiro e ficaram de fora 60 alunos. Jorge Raposo, chefe de Divisão do Património Histórico e Natural da câmara, explica-nos que ali funcionava um antigo estaleiro e que os cursos são um aposta do município. "É importante manter o museu como um espaço dinâmico. As pessoas aderiram muito bem." 

Serras e lixas Carlos Montalvão, de 42 anos, apresenta-nos os seus sete alunos (dos 28 aos 74 anos) e diz orgulhoso: "Os trabalhos deles não ficavam mal em nenhum museu." Ao ver o rigor com que lixam, colam e pegam em peças milimétricas, interrogamo-nos se qualquer pessoa seria capaz de construir um barco a partir do zero. O professor garante que sim. "Até a senhora jornalista. É preciso perseverança. A paciência ganha-se e a habilidade aprende-se. Tive um aluno tremia das mãos. Começou a trabalhar com muitas dificuldades e com o curso recuperou competências manuais."

João Ventura, de 34 anos, compreende bem as dificuldades do início do curso. Nunca tremeu das mãos, mas o jeito para trabalhos manuais não era o seu forte. O técnico superior de história da câmara de Sesimbra veio para o curso por curiosidade profissional, mas descobriu nesta experiência - ainda não lhe chama hobby - um escape do dia-a-dia. Margarida de 34 anos, mãe há seis meses, deixa a filha com o pai e vem para o curso pôr em prática o que já tinha aprendido. Licenciada em design, já trabalhou numa farmacêutica e tirou o curso em Inglaterra de construção naval. "Não é difícil. Perco muito tempo com os detalhes, gosto de tudo muito bem limadinho. Gostava de poder fazê-lo em casa, mas isto suja muito." Também ter em casa uma serra de fita industrial, uma serra circular de precisão e - prepare-se para aprender uma palavra nova - uma desengrossadeira profissional e outra desengrossadeira de precisão (ambas para aplainar) não é muito comum. Todos os alunos aprendem a mexer nestas máquinas, já que constroem o barco a partir de uma tábua de madeira. E é com elas que devem ter mais cuidado. "Quem deixa uma máquina perigosa ligada, compromete-se a trazer uma garrafa de moscatel", avisa o professor. Até hoje ninguém perdeu um dedo nem brindou com Moscatel.

Carlos Montalvão, licenciado em filosofia, começou no modelismo com os kits de barcos de madeira aos 22 anos. Mas não era só o lixar e colar que lhe interessava. Carlos gostava de estudar a história dos barcos. "O modelismo tem uma componente estética interessante, mas permite-nos devolver um passado que se perdeu." Um dos trabalhos mais difíceis do professor foi uma réplica da barca Pedro Nunes. "O casco tinha um forro de cobre. Eram 2750 lamelas de cobre de 15 mm de comprimento por 5 mm de largura. Colei uma a uma", conta. Um dos últimos trabalhos foi um chaveco marroquino que foi oferecido ao rei de Marrocos. 

Duas vezes por semana, das 19h30 às 22h30, os alunos mergulham na reprodução de uma muleta - barco tradicional do Seixal do séc. XIX. O curso está dividido em duas partes: de Setembro a Janeiro (mensalidade de 45 euros) e de Fevereiro a Junho (15 euros). Se ficou com vontade de experimentar, há um ateliê no dia 12 de Março no Ecomuseu.


http://modelismo-e-arqueologia.blogspot.com/ e www.cm-seixal.pt/ecomuseu

 

Via Ionline



publicado por olhar para o mundo às 09:57 | link do post | comentar

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