Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

 A morte passou ao lado

Acho que ninguém que estava naquele voo vai esquecer a cara do piloto", diz Maria Stuart (nome fictício), com os olhos a nublarem-se de lágrimas. "Sei que sem querer driblei a morte num combate desigual. Não canto vitória porque é uma alegria triste. Duzentas e tal pessoas morreram num voo que podia ter sido o meu", diz António Barroso, entre o peso e o alívio de quem escapou à morte.


António Barroso, jornalista, 39 anos, e Maria Stuart, advogada de São Francisco, com 55, não se conheciam até anteontem. Encontraram-se numa mercearia do Bairro Alto e descobriram a mais inesperada coincidência: são ambos sobreviventes de desastres de avião. Estão unidos por duas datas de calendário: 31 de Maio de 2009 e 15 de Janeiro de 2009. Ela estava no voo da U.S. Airways que amarou nas águas gélidas do rio Hudson, ao largo de Manhattan. Ele entrou no voo da Air France que fazia a ligação entre o Rio de Janeiro e Paris às 16h20, hora do Rio. Duas horas e quarenta minutos separaram-no do fatídico voo 447 que desapareceu no Atlântico.

Quando chegou ao aeroporto Charles de Gaulle, António Barroso tomou o pequeno-almoço e leu o "L'Équipe" para saber quem tinha vencido a Taça de Portugal. Pouco depois, recebeu o telefonema: "Estás bem, estás vivo?" Franziu as sobrancelhas. Estava bem e à sua volta tudo parecia normal. "Estão aqui a dizer na televisão que o avião da Air France desapareceu dos radares", explicaram do outro lado da linha. António, que fala sem parar, ficou sem fala. "Então eu fiz a carreira da morte, no autocarro anterior? Porra! Podia ter sido eu?" 

Só então começou a perceber os sinais. Os assistentes da Air France não largavam os walkie-talkies, os sorrisos tinham desaparecido. Horas antes, no aeroporto António Carlos Jobim, olhara para o ecrã com as informações de embarque e concluíra que podia ter desfrutado de mais duas horas de praia em Ipanema: havia outro voo duas horas mais tarde. Depois do telefonema, arrependeu-se do que pensara. 

SILÊNCIO Maria Stuart soube logo que um dos motores tinha deixado de funcionar. "Houve um estrondo. E depois silêncio. Esmagador..." Lembra-se de olhar para o relógio por cinco longos minutos. Depois vieram as palavras do piloto, que ainda consegue reproduzir de cor. "Preparem-se, vamos despenhar-nos. Descalcem-se, vistam os coletes e mantenham a calma que vou tentar salvar a vida de todos nós." O avião começou a descer aos solavancos, "como se houvesse poços de ar muito fortes" e "as coisas começaram a cair. Depois, um bum e um splash enorme."

Maria Stuart conseguiu nacionalidade americana por serviços prestados à justiça e naquele voo usava passaporte americano. Por isso não se soube que havia uma portuguesa a bordo do A320. Meses depois, afirma com frieza: "Passei a acreditar que quando chega a nossa hora não importa onde estamos." 

Ainda se corresponde com passageiros daquele avião. "Criou--se uma relação muito forte, apesar de ter sido um encontro breve." Tal como Maria, António vai guardar religiosamente o bilhete do lugar 16-A, junto à janela, junto a outras relíquias - fotos com entrevistados, autógrafos dos seus heróis. E não é tudo o que guarda daquele dia: "O som dos 20 sms quando ligo o telemóvel, em Portugal, vai comigo para o túmulo."

OS ÚLTIMOS MINUTOS Segundo informações avançadas ontem pela imprensa brasileira, nos minutos que antecederam a queda no Atlântico, o avião da Air France terá emitido vários sinais de alerta de problemas técnicos. As mensagens terão sido enviadas durante quatro minutos e apontam para que o avião tenha entrado em queda livre até ao mar. Mas a confirmação desta teoria só poderá ser feita quando forem descobertas as duas caixas negras do Airbus. A operação de resgate está, no entanto, a ser encarada pelas autoridades brasileiras como bastante complicada, devido à pro- fundidade a que deverão estar. 

 

Via Ionline



publicado por olhar para o mundo às 13:33 | link do post | comentar

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