Domingo, 23 de Janeiro de 2011

The legendary Tigerman

 

Há alguns anos encher o Coliseu de Lisboa constituía um momento de consagração. Hoje esse facto já não possui o mesmo peso, de alguma forma banalizou-se, mas continua a ter um peso simbólico específico. Por vezes nesse frenesi de tentar transformar um concerto no Coliseu num momento especial, já vimos suceder alguns desastres. Perdas de identidade. 

Quando se soube que Paulo Furtado, ou seja Legendary Tigerman, iria ter muitos convidados nos Coliseus (sexta actuou no Coliseu do Porto), temeu-se que pudesse suceder algo semelhante. Mas não. Desde que lançou o álbum “Femina” (2009) já lhe vimos quatro concertos (OptimusAlive!, Lux, Tivoli, Paris) com resultados desiguais. Sábado foi o melhor. 

Foi diferente, porque passou em revista o seu percurso, trouxe convidados, apresentou surpresas, mas nunca perdeu o fio, a sua identidade, os blues, o rock, a soul, o imaginário, o deserto, a solidão, a lascívia, o sexo, a forma enérgica de estar em palco. 

Tem sido a pulso, mas muito inteligente, o percurso de Furtado. Com o seu grupo WrayGunn, e a solo, como Tigerman, conquistou inicialmente os melómanos. Depois, aos poucos, foi-se rodeando de cada vez mais público e dando passos certos em alguns mercados externos, conseguindo fazer reverter esse interesse internacional para uma maior visibilidade nacional.

Beneficiou indirectamente de uma conjuntura global onde o rock e a soul, no sentido mais clássico e áspero, voltaram a estar na ordem do dia, mas nunca prescindiu de afirmar a sua personalidade. No sábado, mais uma vez foi isso que se assistiu. 

Apesar de ser um homem de palco, é também alguém que sabe rodear a sua música de imaginário visual. E ao longo da noite foi isso que se viu, uma espécie de sucessão de quadros, onde por vezes esteve só, mas na maior parte das vezes acompanhado, ou por cúmplices de carne e osso, ou por dispositivos de imagens. 

Foi assim que começou, esquio, guitarra em punho, pé no bombo, com a carnal Asia Argento (uma das muitas convidadas vocais do álbum “Femina”) projectada no ecrã em jogo de volúpia rock. Depois seguiram-se mais convidadas, como Rita Redshoes (excelentes, os dois, na tensão que conseguem provocar em “Hey, sister Ray”), Claudia Efe (soltando “god is everywhere, under a woman’s skirt and inside a man’s pants”, perante o gáudio da assistência) ou Lisa Kekaula, imensa em todos os sentidos, fazendo vir abaixo a sala com o seu vozeirão.

Pelo meio, sem nunca perder o sentido de espectáculo, interagiu com a assistência, provocando os que estavam sentados para se levantarem, ou apresentado os convidados com uma vénia. 

“O melhor duo de Lisboa”, foi assim que os Dead Combo foram expostos, para dois dos temas mais tranquilos da noite, contrastando com a entrada em cena do guitarrista Jim Diamond e do baterista Mick Collins (“dois senhores que me influenciaram muito”, disse), para dois temas rock & roll, o segundo, “Girls”, um dos mais excitantes da noite, rivalizando com uma versão desvairada dos Suicide na companhia de Claudia Efe. 

Na ausência de Maria de Medeiros, cantou sozinho “These boots are made for walkin”, mas foi ajudado pelo público de pé, enquanto “Radio & TV blues’ foi dedicado à “merda de televisão e rádio que temos”. Na parte final foram os DJs Ride e Nell Assassin, em gira-discos, que entraram num duelo virtuoso com Furtado na guitarra e João Doce (dos WrayGunn) na bateria. 

No primeiro de dois encores, antes de nova aparição virtual de Argento, entraram em acção os WrayGunn, apresentando dois temas (Go Go Dancer” e um inédito que fará parte do próximo álbum). Mas o final haveria de ser sozinho, interpretando ‘True Love will find you in the end’, original de Daniel Johnston, “uma das canções de amor mais bonitas que conheço’, disse, com o público a bater palmas a compasso, naquele que foi o final perfeito para uma noite de festa para Paulo Furtado e companhia.

 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 18:46 | link do post

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