Domingo, 24 de Outubro de 2010

Uma geração pouco rasca

 

"A geração anterior entalou-nos nela própria: tomem lá a liberdade e não sei o quê e logo a seguir caem numa resignação apagada. Deram-nos uma ilusão de força colectiva e capacidade de mobilização que de repente não se percebe, sequer, como é que existiu." A conclusão é do músico JP Simões, um dos convidados do documentário "Uma na Bravo outra na Ditadura", de André Valentim Almeida. Durante uma hora, vários trintões explicam o que é isso de ser da geração de 70, nascidos e criados a seguir ao 25 de Abril.

A ideia é de André, 33 anos, professor de multimédia na Universidade do Porto: "Há documentários sobre a guerra colonial, sobre o 25 de Abril, e sobre nós? Ainda por cima é uma geração um bocado vilipendiada pela anterior, que põe nela um grande peso e a apelida de rasca, sem perceber que estão a chamar-se a si próprios, uma vez que somos um produto da geração anterior." 

André demorou um ano e meio para concluir o projecto e é responsável por todas as fases da criação do documentário, desde os contactos às entrevistas, passando pela recolha de imagens e montagem da obra. 

Além dos depoimentos de nomes conhecidos como Jacinto Lucas Pires, Joana Vasconcelos, João Pereira Coutinho ou Raquel Bulha, André inseriu imagens de séries, filmes e anúncios populares do final dos anos 70, início dos 80, com os quais esta geração cresceu: "Havia uma monocultura potenciada pela televisão. Só havia dois canais e toda a gente via o mesmo. Posso falar disso com qualquer pessoa da minha geração que ela imediatamente se identifica e se reconhece. E é transversal a classes sociais e económicas. E depois transforma-se em conversa de café muito emocional e sentimental." Para André e alguns dos convidados de "Uma na Bravo outra na Ditadura", esta é uma geração "precocemente nostálgica". "Crescemos num espaço muito mágico e bonito; crescemos com o lápis e vimos essa evolução; ainda brincámos na rua e ainda tivemos os avós no campo, onde os visitávamos", explica André. 

Para Pedro Mexia, esta é uma geração ambígua: "Não é antiga mas também não é completamente moderna. É um bocado como aqueles cidadãos sem pátria, não pertencem a um sítio mas também não pertencem ao outro." 

Para além dessa nostalgia precoce, que se reflecte, inclusive, no regresso de produtos dessa altura e de remakes de filmes e séries dos anos 80 [ver caixa], é uma geração mais infantil do que a anterior: "A geração anterior foi obrigada a crescer mais depressa, porque viviam numa ditadura. Nós podemos ser infantis até mais tarde, o que não quer dizer que sejamos infantilizados, e vejo isso como uma coisa boa. A nossa geração é mais lúdica, em oposição à dos nossos pais, que é mais cinzenta e sisuda."

Com apenas quatro meses de vida e uma divulgação feita apenas online, o documentário de André já teve mais de oito mil visualizações. A opção de partilhar este projecto através da internet prende-se com vários motivos: "Primeiro porque queria que o maior número de pessoas o visse; segundo, por uma questão de direitos de autor. Com a quantidade de imagens que usei não podia mesmo ganhar dinheiro com o documentário."

Este foi o primeiro trabalho de André, um projecto "limpinho, honestinho e útil", que serviu como uma "purga", uma espécie de ajuste de contas com a geração-mãe: "Fomos levados a acreditar que tudo seria possível, que o futuro era nosso, brilhante e com oportunidades. E de repente saímos da universidade e as coisas não eram bem assim. Fomos um bocado enganados pela geração anterior. Mas eles não nos mentiram: acreditavam efectivamente que as coisas iam ser óptimas."

 

Via Ionline



publicado por olhar para o mundo às 15:22 | link do post | comentar

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