Sábado, 23 de Outubro de 2010

Mineiros, do Underground para a ribalta

 

"O que aconteceu na mina, fica na mina", Foram estas as palavras de Dário Segovia, o 20º mineiro a chegar à superfície de óculos escuros e sorriso nos lábios. Mas, definitivamente, esta premissa não foi cumprida. A trágica derrocada da mina de San José, no deserto de Atacama, espalhou-se pelo mundo. De repente toda a gente queria saber tudo sobre os mineiros: se estavam a salvo, quando sairiam, o que faziam lá em baixo, o que comiam, em que pensavam, quem eram os seus familiares.

As luzes incidiram sobre o Chile, o seu presidente e os incríveis esforços para resgatar os mineiros. A identidade dos homens foi conhecida assim como as suas histórias pessoais. Um pôde ver pela primeira vez a filha por videoconferência outro pediu a namorada em casamento e outro, afinal, não queria sair da mina, porque tinha mulher e amante à espera. Sabe-se que o líder do grupo foi "Don Lucho" que manteve a ordem e estabeleceu a calma. Impunha regras para não deixar os companheiros irem abaixo: havia horas para levantar, racionamento de comida e água. Muitos rumores surgiram 700 metros debaixo de terra: que pairou um medo de canibalismo e até que houve confrontos físicos entres alguns mineiros. 

"A vida imita a arte" dizia o dramaturgo e escritor Oscar Wilde. O salvamento dos mineiros é um exemplo prático de como a vida pode ganhar contornos de guião. O episódio tem todos os ingredientes dignos de uma película de sucesso. Um acidente inesperado, uma situação insuportável, a luta pela sobrevivência, o final heróico e feliz. "Se as grandes personagens de ficção se revelam pelas suas escolhas, o drama e as opções vividas pelos mineiros da mina chilena teriam tudo para resultar num filme intenso" explica Nuno Duarte, escritor e argumentista. 

Já surgiram uma série de reacções ao salvamento dos mineiros chilenos. Apareceram em capas de jornais, abriram noticiários de todo o mundo, foram ouvidos nas rádios. O seu salvamento foi transmitido minuto a minuto por todo o globo. Foi criado um jogo inspirado na situação e até já se fala de um filme com Javier Bardem como protagonista. 

Apanhado por esta onda de mediatismo, o i ficou curioso por saber como seria ver a história dos 33 mineiros transformada num filme. Assim, desafiámos quatro argumentistas e um realizador a fazer a adaptação. Surgiram histórias diferentes: do irónico, passando pelo dramático até ao romanceado, muitas perspectivas foram abordadas. 

Pode ser que ache piada ou pode ser que não. Mas que esta história dava um filme, ai isso dava.

 

Alexandre Borges:

Versão blockbuster

“33 Homens e um destino”

Chile, 2010. O Presidente está em queda nas sondagens. De repente, uma tábua de salvação: 33 homens ficam soterrados numa mina. Poderiam ser retirados em poucos dias, mas o pérfido Presidente mantém-nos soterrados. Finge desdobrar-se em esforços enquanto os alimenta por uma palhinha. 69 dias depois, vai salvá-los pessoalmente. O povo ajoelha-se a seus pés. No último momento, o derradeiro mineiro topa as intenções do Presidente, traça-lhe a perna e manda-o lá para baixo. Urra. Vitória. O mineiro é eleito Presidente.

 

Versão romance

“A Vida, o amor e as minas”

Chile, 2010. 35 homens ficam soterrados numa mina. Enquanto estão lá em baixo, sem luz nem mantimentos, Ortega e Octávio descobrem o amor. Os outros 33 não suportam tanta pieguice e imploram para que alguém os tire de lá. Após 69 dias, são salvos. Octávio e Ortega optam por ficar porque acham que o mundo não compreenderá o seu amor. Pedem aos 33 que não contem a ninguém e estes respondem, antes de se meterem na cápsula, que não falariam sobre isso nem que lhes pagassem.

 

Versão intelectual

“A Mina”

Chile, 2010. 33 homens ficam soterrados numa mina. 69 dias depois, são resgatados. Cada um vai à sua vida. Todos pensam muito nos dias que passaram lá em baixo. Vão trabalhar e pensam nisso. Vão ao supermercado e pensam nisso. Fazem amor com a mulher e pensam nisso. Fazem amor com a amante e pensam nisso. Um dia, um deles repara que ontem não pensou nisso. No fim, há um plano muito bonito da antiga mina e dos hotéis e lojas de souvenirs que, entretanto, cresceram em volta.

 

Alexandre Borges é guionista, trabalhou na TV em projectos como“Equador” e “Grandes Livros”. É crítico de cinema do i.

 

Nuno Duarte:

“Paralelismos”

Se as grandes personagens de ficção se revelam pelas suas escolhas, o drama e as opções vividas pelos mineiros de cobre da mina Chilena de El Teniente teriam tudo para resultar num filme intenso. Todavia, o que seria destes homens se o soterramento não tivesse acontecido? Esta seria a premissa de um filme com duas linhas narrativas paralelas tendo pontos de partida divergentes. 
De um lado a dura realidade dos momentos vividos após o soterramento, com as discussões, o medo, a claustrofobia e a discussão por meras gotas de água e bolachas. Noutro mundo porém, 33 mineiros são informados atempadamente do fecho da mina e partem para um mundo solarengo, onde as famílias, a sociedade e a realidade de uma crise económica se apodera deles.
Se para os homens enterrados vivos a 700 metros de profundidade o contacto com as autoridades e a descoberta de meios para lhes fazer chegar mantimentos se revela como um facho de esperança, para os seus alter egos em liberdade, o desespero da falta de oportunidades e de um sentido para a vida começa a levar muitos para soluções de ruptura.
No fundo da mina surge uma luz e uma cápsula que a todos levará para um mundo mais atento aos seus problemas, enquanto que na corriqueira vida de uma realidade alternativa um grupo de homens cai vítima de alcoolismo, crime e falta de esperança.
Branco e negro, yin e yang, dois mundos, duas formas de perceber que, se calhar, bater literalmente no fundo pode nem ser assim tão mau.

Nuno Duarte é argumentista associado das Produções Fictícias, tendo trabalhado em séries como “Liberdade 21”, “República” ou “Conta-me como foi”, encontrando-se este fim de semana a promover a sua novela gráfica “A Fórmula da Felicidade” no Festival Amadora BD 2010.

Nuno Duarte é argumentista associado das Produções Fictícias, tendo trabalhado em séries como “Liberdade 21”, “República” ou “Conta-me como foi”, encontrando-se este fim de semana a promover a sua novela gráfica “A Fórmula da Felicidade” no Festival Amadora BD 2010.

Tiago R. Santos

"70 Dias"

Sebastián Piñera, presidente do Chile, está fechado num gabinete com um Homem e a discussão decorre há horas. “Há que fazer alguma coisa”, diz o Homem que lê o jornal. “Já ninguém se lembra que chegámos aos oitavos no campeonato do Mundo. Se tivéssemos ganho ao Brasil, ainda hoje se falava disso”. O Presidente rói as unhas “Temos que colocar o Chile no mapa. Tirar a crise da cabeça das pessoas”.
Dois dias depois, 33 mineiros ficam soterrados a 700 metros de profundidade. Há quem descubra que o acidente foi, na verdade, provocado por um dos colegas. Os trabalhadores viram-se uns contra os outros. Até que um admite ser o culpado. “Ouçam. Sim, vamos ficar isolados durante duas semanas, é preciso drama nesta história. Mas depois temos comida e música do Elvis Presley, vemos futebol, há jogos de vídeo e MP3 e até livros. E, quando sairmos, somos heróis, vendemos entrevistas e fotografias com as nossas famílias.’ Os mineiros acalmaram e continuaram a ouvir. “E, aqui, somos quem nós quisermos. Tu, José, o que é que querias ser?’. ‘Padre’. ‘Então és Padre. E tu, Ávalos, qual é o teu sonho?’ ‘Ser Realizador de Cinema’. ‘Vou já pedir uma câmara’. ‘Quero ser escritor’, disse Victor, embalado pelo momento. ‘Vou dizer aos advogados para redigirem os contratos.”
Sessenta e nove dias depois, os mineiros são resgatados numa cerimónia transmitida em directo para todo o mundo. Nesse momento, não há um único chileno que esteja a pensar na crise. Jornais e revistas, editoras de livros e produtoras cinematográficas abrem os livros de cheques. 
No dia 70, Roberto Fernandez, 26 anos, é esmagado por uma pedra enquanto trabalhava a mil metros de profundidade. Não há luzes apontadas a esta história. “Pois, é preciso estar no sítio certo, na hora certa, para sermos heróis”, diz o Homem que lê o jornal.


Tiago R. Santos escreveu o argumento de grandes produções portuguesas como “Call Girl” ou o mais recente “A Bella e o Paparazzo”.

Luís Filipe Borges

"Dust to Dust"

STORYLINE: O mundo acompanha em suspense a odisseia de 33 homens há mais de dois meses presos no interior da terra. Todos querem vê-los salvos. Um quer continuar lá.

Género: thriller inspirado numa história verídica

Quando Cuautehmoc Isla ficou soterrado, reagiu como os 32 companheiros. Houve pânico e desespero. Quando um líder se afirmou entre o grupo não respirou de alívio, fez como os outros e resignou-se. Contentaram-se com a ideia de haver nobreza numa morte digna. A luz, por uma vez literalmente ao fundo do túnel, era uma esperança para quase todos vã. Mas habituaram-se a comer e beber racionadamente, a contar histórias à volta da fogueira como os homens primitivos do início dos tempos. Quando as comunicações foram reestabelecidas, exultou como todos, mas rapidamente se tornou o único a remar contra a maré, roído pelo remorso e pela culpa. O seu motivo permaneceu misterioso e originou discussões que levaram a vias de facto, em particular quando Cuautehmoc tenta corromper as coordenadas, de modo a deslocar a cápsula Fénix para outro lugar. Terá cometido um crime, como desconfia o líder? Será o responsável pela situação dramática em que se encontra o grupo, como pensa a esmagadora maioria dos colegas? Ou terá duas mulheres à espera quando a terra der finalmente à luz? 
Comediante e guionista, Luís Filipe Borges também é apresentador de televisão. “A Revolta dos Pastéis de Nata” e o “Cinco para a Meia-Noite” são, talvez, os seus trabalhos mais conhecidos.

 

Ivo M. Ferreira

"O Penúlltimo Homem"

Os três homens acabam de receber por uma mangueira uma série de comprimidos: “Carne...Vegetais... Peixe... Batata... Galinha...” Um deles atira os comprimidos para o chão e afasta-se, nervoso e choroso (Manolo). Outro, riposta: “Eu cá não como mais disso. Prefiro esperar por um bife de chouriço, acompanhado do sauvignon blanc da aldeia.” Paco, que mal vemos no escuro, apanha os comprimidos do chão. Um som de motor eléctrico chama a atenção dos homens. “Vem aí!” “Manolo, és o tu próximo!” 
Uma cápsula pintada de vermelho, branco e azul chega à galeria subterrânea. Manolo, antes de entrar na cápsula, vira-se para Paco: “Paco, queres que diga alguma coisa à família?” “Até já, Manolo!”A cápsula volta a descer e entra para lá o mineiro. Fica assim Paco e o Último.
A cápsula sobe. O Último aproxima-se de Paco. “Tenho medo. E tu?” “De quê? De ser o último” “Dou-te a minha vez.” A cápsula volta a descer. O Último entra. “Não tens medo, Paco?” “Até já.”
A cápsula sobe e Paco baixa-se a um canto. Debaixo de um cobertor, retira uma lata. Abre-a para guardar os comprimidos e vemos que dentro há dezenas de outros. Guarda a lata e vemos que há várias garrafas de plástico cheias de água. Um walkman de cassetes está em cima de um pedaço de cartão rasgado. Paco arrasta uns ferros para o pé da zona onde chega a cápsula. Carrega um outro ferro. A cápsula chega.
Paco, está no canto, coloca o seu walkman e carrega em play. Ouvimos alto “La Concentida” (Cueca Chilena).
Fora da mina, no exterior, todos aguardam a subida da última cápsula. Quando ligam a máquina, a torre que puxa a cápsula sede, rebenta, e causa o desabamento de terras e guindastes.


Ivo Ferreira é realizador português. Já realizou longas-metragens, curtas e documentários. “Vai com o Vento” é o seu último trabalho que está nos cinemas.

 

Via Ionline



publicado por olhar para o mundo às 12:34 | link do post

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