Sábado, 9 de Outubro de 2010

José Mourinho

 

Sou português há 47 anos e treinador de futebol há dez. Sendo assim, sou mais português do que treinador. Posto isto, para que não restassem dúvidas, vamos ao que importa...

 

As Selecções Nacionais não são espaços de afirmação pessoal, mas sim de afirmação de um País e, por isso, devem ser um espaço de profunda emoção colectiva, de empatia, de união. Aqui, nas selecções, os jogadores não são apenas profissionais de futebol, os jogadores são além disso portugueses comuns que, por jogarem melhor que os portugueses empregados bancários, taxistas, políticos, professores, pescadores ou agricultores, foram escolhidos para lutarem por Portugal. E quando estes eleitos a quem Deus deu um talento se juntam para jogar por Portugal, devem faze-lo a pensar naquilo que são - não simplesmente profissionais de futebol (esses são os que jogam nos clubes), mas, além disso, portugueses comuns que vão fazer aquilo que outros não podem fazer, isto é, defender Portugal, a sua auto estima, a sua alegria.

 

Obviamente há coisas na sociedade portuguesa incomparavelmente muito mais importantes que o futebol, que uma vitória ou uma derrota, que uma qualificação ou não para um Europeu ou um Mundial. Mas os portugueses que vão jogar por Portugal - repito, não gosto de lhes chamar jogadores - têm de saber para onde vão, ao que vão, porque vão e o que se espera deles.

 

Por isso, quando a Federação Portuguesa de Futebol me contactou para ser treinador nacional, aquilo que senti em minha casa foi orgulho; do que me lembrei foi das centenas e centenas de pessoas que, no período de férias, me abordam para me dizerem quanto desejam que eu assuma este cargo. Isto levou-me, pela primeira vez na minha vida profissional, a decidir de uma forma emocional e não racional, abandonando, ainda que temporariamente, um projecto de carreira que me levou até onde me levou.

 

Desculpem a linguagem, mas a verdade é que pensei: Que se lixem as consequências negativas e as críticas se não ganhar; que se lixe o facto de não ter tempo para treinar e implementar o futebol que me tem levado ao sucesso; por Portugal, eu vou!

 

E é isto que eu quero dizer aos eleitos para jogar por Portugal: aí, não se passeia prestigio; aí, não se vai para levar ou retirar dividendos; aí, quem vai, vai para dar; aí, há que ir de alma e coração; aí, não há individualidades nem individualismos; aí, há portugueses que ou vencem ou perdem, mas de pé; aí, não há azias por jogar ou por ir para o banco; aí, só há espaço para se sentir orgulho e se ter atitude positiva.

 

Por um par de dias senti-me e pensei como treinador de Portugal. E gostei. Mas tenho que reconhecer que o Real Madrid é uma instituição gigante, que me «comprou» ao Inter, que me paga, e que não pode correr riscos perante os seus sócios e adeptos. Permitir que o seu treinador, ainda que por uns dias, saísse do seu habitat de trabalho e dividisse a sua concentração e as suas capacidades era impensável.

 

Creio, por conseguinte, que o feedback que saiu de Madrid e chegou à Federação levou a que se anulasse a reunião e não se formalizasse o pedido da minha colaboração.

 

Para tristeza minha e frustração do presidente Gilberto Madail.

 

Mas, sublinho, agora já a frio: foi e é uma decisão fácil de entender. Estou ao leme de uma nau gigantesca, que não se pode nem se deve abandonar por um minuto. O Real decidiu bem.

 

Fiquei com o travo amargo de não ter podido ajudar a Selecção, mas fico com a tranquilidade óbvia de quem percebe que tem nas suas mãos um dos trabalhos mais prestigiados no mundo do futebol. 

 

Agora, Portugal tem um treinador e ele deve ser olhado por todos como «o nosso treinador» e «o melhor» até ao dia em que deixar de ser «o nosso treinador». Esta parece-me uma máxima exemplar: o meu é o melhor! Pois bem, se o nosso é Paulo Bento, Paulo Bento é o melhor.

 

Como português, do Paulo espero independência, capacidade de decisão, organização, modelagem das estruturas de apoio, mobilização forte, fonte de motivação e, naturalmente, coerência na construção de um modelo de equipa adaptada as características dos portugueses que estão à sua disposição. Sinceramente, acho que o Paulo tem condições para desenvolver tudo isso e para tal terá sempre o meu apoio. Se ele ganhar, eu, português, ganho; se ele perder, eu, português, perderei. Mas eu também quero ganhar.

 

No ultimo encontro de treinadores que disputam a Champions League, quando questionado sobre o poder dos treinadores nos clubes, ou a perda de poder dos treinadores face ao novo mundo do futebol, sir Alex Fergusson disse (e não havia ninguém com mais autoridade do que ele para o dizer!) que o poder e a liderança dos treinadores depende da personalidade dos mesmos, mas que depende muitíssimo das estruturas que os rodeiam. Clubes e dirigentes fragilizam ou solidificam treinadores.

 

Eu transponho estas sábias palavras para a selecção nacional: todos, mas todos, neste país devem fazer do treinador da selecção um homem forte e protegido. E quando digo todos, refiro-me a dirigentes associativos, federativos e de clubes, passando pelos jogadores convocados e pelos não convocados, continuando pelos que trabalham na comunicação social e terminando nos taxistas, políticos, pescadores, policias, metalúrgicos, etc. Todos temos de estar unidos e ganhar. E se perdermos, que seja de pé.

 

Mas, repito, há coisas incomparavelmente mais importantes neste país que o futebol. Incomparavelmente mais importantes¿ Infelizmente!

 

Aproveito esta oportunidade para desejar a todos os treinadores portugueses, aos que estão em Portugal e aos muitos que já trabalham em tantos países de diferentes continentes, uma época com poucas tristezas e muitas alegrias.

 

 

Ao Xico Silveira Ramos, manifesto-lhe a minha confiança no seu cargo de Presidente da ANTF.

 

Um abraço a todos.

 

José Mourinho



publicado por olhar para o mundo às 10:01 | link do post | comentar

61 comentários:
De Jesus a 12 de Junho de 2012 às 12:43
Muito bem dito Assim e que Somos portugueses. Abraco mourinho.


De Luis a 13 de Junho de 2012 às 10:49
Sr. Mourinho obrigado por estas palavras de animo e atenção a todos os que leram este comunicado sou portugues e defendo esta idiologia. Um abraço.


De Paulo a 13 de Junho de 2012 às 13:50
deveria defender a língua portuguesa também. é ideologia e não idiologia.

Cumprimentos


De Anónimo a 13 de Junho de 2012 às 15:43
A serio?! isso foi o que retiraste da carta?!


De Paulo a 13 de Junho de 2012 às 16:05
Não foi o que eu retirei da carta mas sim do comentário acima do meu. Não custa nada estar atento. Até porque o Mourinho escreve bom português


De Ricardo a 13 de Junho de 2012 às 16:06
Tem toda a razão Paulo. Peço desculpa.


De Pedro a 18 de Junho de 2012 às 16:42
Tinha de haver um anormal à procura de "defeitos".
Anormal, está bem escrito ou tem erro?


De Paulo a 18 de Junho de 2012 às 18:08
No seu caso o problema não é o português, é a boa educação. E mais uma vez refiro que o meu comentário era dirigido ao comentário do Sr. Luís, que realmente continha esse erro.

Cumprimentos


De Silvina de JesusMartins da Silva a 15 de Junho de 2012 às 17:26
Mais uma vez o José Mourinho mostrou com esta carta o quanto é importante a todos os níveis, PESSOAL e PROFISSIONAL, só uma pessoa integra como ele pode chegar onde este SENHOR chegou. Ainda ganhou mais a minha admiração. Parabéns pelo seu profissionalismo e o seu bom senso de quem pode estar no ALTO e ver cá para baixo ser ser com indiferença . Embora alto olha de maneira a ver olho no olho. Muitas felicidades que Deus o ajude sempre tanto a nível pessoal como profissional e mostre como sempre o tem feito e muito bem que é PORTUGUÊS Bem HAJA


De 11por.todos.todos por11 a 12 de Junho de 2012 às 16:56
Vamoooooooooooooooooos :)


De CDN a 12 de Junho de 2012 às 17:20
Um Sr. Ou melhor o Sr. Do Futebol Iternacional!
Grande Mourinho, Força \"Tugas\"!


De Ruben Vieira a 12 de Junho de 2012 às 17:44
Mourinho a PM JÁ!


De Diogo a 12 de Junho de 2012 às 17:57
QUE SENHOR!


De armando a 12 de Junho de 2012 às 18:16
Tanto tanto... Quem sabe, sabe!


De Nelson Santos a 12 de Junho de 2012 às 18:40
José Mourinho um HOMEM 3G
Grande Treinador
Grande Homem
Grande Orgulho de PORTUGAL!!!


De Anónimo a 12 de Junho de 2012 às 18:51
Assim e que se fala,parabens Mourinho.


De madiso a 12 de Junho de 2012 às 19:23
Um grande homem, sincero, Português e Setubalense, espero vê-lo um dia a treinar a NOSSA SELEÇÂO.


De Su a 12 de Junho de 2012 às 20:35
Stand up for the Special One!


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