Domingo, 9 de Maio de 2010

50 anos de Pílula

 

Em 1964, a socióloga Maria Filomena Mónica, então com 21 anos e dois filhos, correu sete ginecologistas até um concordar em receitar-lhe a pílula. "Eram todos católicos", justifica. Depois, e durante três anos, tomou a dose diária a dobrar para se "sentir mais segura". Só em 1967 um médico em Londres a esclareceu: era desnecessário e inútil. A jornalista Susana Vasques, 73 anos, foi também das primeiras a tomar o comprimido da revolução sexual. Entre amigas "até era normal", mas uma vez numa reportagem ouviu os desabafos de quem tinha de esconder a caixinha debaixo da cama ou punha o comprimido entre os joelhos.

Este domingo, 9 de Maio, faz 50 anos que a autoridade norte-americana do medicamentoaprovou o primeiro contraceptivo oral. Na altura, já meio milhão de americanas usava a pílula como um suposto comprimido para regular o ciclo menstrual. Em Portugal, a história é parecida, e em 1960 também já havia quem tomasse a pílula - corajosas, diga-se - com o mesmo pretexto. Só que as peripécias alargaram-se até 1974, data do primeiro carimbo do Infarmed.

Era o início da década de 1960: ainda se acreditava que era impossível engravidar durante a amamentação; tinha-se filhos uns atrás dos outros; o prazer entrava no fim da cadeia dos afectos. Na gíria, à primeira terapia anovulatória (por inibir a ovulação) chamou-se "novo lar", o que acabaria por contribuir para a verdade: entre 1971, o primeiro ano disponível no Instituto Nacional de Estatísticas, o índice de fecundidade caiu de 2,99 filhos para 1,37 - um dos mais baixos na Europa.

Muito antes disso já Portugal se tinha cruzado com a história da emancipação sexual com um dos vários comprimidos conhecido das americanas no final do século XIX. Pelo menos na publicidade. Um anúncio recordado no livro "Abortion in America" apresentava os Dr. Melveau's Portuguese Female Pills: "uma forma eficaz de aborto." 

parto difícil Uma das peças-chave na criação da pílula foi a feminista e fundadora da Liga Americana de Controlo de Natalidade Margaret Sanger. Em 1951, num jantar, conheceu o biólogo judeu George Pincus e percebeu que o investigador estava lançado nos estudos hormonais. Faltava-lhe financiamento para investir em anticoncepcionais. Sanger tinha a amiga milionária perfeita para o caso: Katharine McCormick. Um ano depois tinham aumentado exponencialmente o orçamento e começaram os ensaios clínicos. A Enovid, produto deste trio visionário, seria autorizada pela FDA em 1957 como terapêutica para as desregulações menstruais. Três anos depois, aprovada a função principal - travar a fecundação - abriram-se as portas à revolução sexual que serviu o Maio de 68, Woodstock e a emancipação da mulher.

Maria Filomena Mónica não tem dúvidas: "foi a maior inovação científica do século XX, maior do que a ida à Lua." Começou a tomar a pílula depois do segundo filho nascer e não hesita no balanço: "A minha vida teria sido totalmente diferente. Teria tido sete ou oito filhos, não tinha acabado o curso, uma vida miserável." A parte dos oito filhos é provável que estivesse correcta, explica o médico ginecologista José Diniz da Fonseca, do Centro de Estudos da Família e Reprodução Humana. "As pessoas casavam-se aos 24 anos. Entre nove meses de gravidez e períodos de lactação chegavam à pré-menopausa com oito filhos." 

portugal social Diniz da Fonseca foi chefe de serviço na maternidade Magalhães Coutinho em Lisboa. "Por um lado, com o final da segunda grande guerra, havia uma enorme vontade de emancipação. Mas sentia-se o peso da igreja, com um papel importante da encíclica de Paulo VI sobre a regulação da natalidade", explica. A encíclica "Humanae Vitae" (Da vida humana) foi publicada em 1968 - um ano antes tinha havido a primeira visita papal ao país. A pílula, nunca é referida, mas fica explícito o parecer católico: "É de excluir toda a acção que se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação." O único caminho lícito para contornar a gravidez é utilizar os períodos "infecundos" do ciclo da mulher, o que relançou os métodos de auto-observação, como o da temperatura. 

A pílula entrou em Portugal como terapêutica em 1962 pelas mãos da farmacêutica Schering Lusitana (entretanto comprada pela Bayer) e só em 1974 foi aprovada pelo Infarmed como anticoncepcional. Hoje no mercado português há 53 contraceptivos orais, num consumo anual que ronda as oito milhões de embalagens e caiu 9,1% entre 2005 e 2009. 

Até 1974, mais do que o acesso, o problema era a falta de informação, explica João Neto, director do Museu de Farmácia que em 2002 ajudou a preparar uma exposição sobre a pílula. "Tivemos o testemunho de um senhor que foi com a esposa ao médico porque tinha ficado grávida. Era ele que estava a tomar pílula. Outro apresentou queixa na GNR porque a mulher tinha tido uma relação extraconjugal certa de que não ia engravidar."

Medos Apesar da liberalização, manteve-se o medo das doenças associadas. Em Março, um estudo britânico com 46 mil mulheres trouxe um dos resultados mais positivos: as que tomavam o anticoncepcional desde os anos 60 viviam mais tempo. De acordo com os investigadores, reduzirá os riscos de cancro do intestino em 38% e o de outras doenças em 12%. "A pílula evoluiu com a diminuição progressiva das doses. Hoje numa mulher completamente saudável não é expectável que surjam complicações", sublinha Martinez de Oliveira, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. "O principal defeito", brinca o especialista, "é que diminuiu tanto a população que muitos países estão aflitos." Uma medida por implementar é fazer exames médicos à mulher antes da prescrição: "não se faz por uma questão de custo/benefício."

Mas há quem procure alternativas. Um dos grupos de trabalho é português e vai ser ouvido pela Organização Mundial de Saúde no final do mês. "A pílula destrói todo um ecossistema, e é incrível como durante 50 anos não se procurou uma alternativa", defende Diniz da Fonseca. A ideia destes especialistas é utilizar a fisiologia para controlar a reprodução. No futuro, acreditam, a contracepção vai passar pela mulher aprender a "monitorizar melhor o seu ciclo" e tomar apenas a progesterona em falta. "Cientificamente faz sentido, mas do ponto de vista prático é muito complexo. E ou é muito fácil ou as pessoas não estão para isso", comenta Martinez de Oliveira.

 

Via ionline



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