Segunda-feira, 3 de Maio de 2010

A palavra crise pouco dirá a quem vive em crise desde que vive? “Quem é muito pobre quer lá saber da crise!”, prega Esmeralda Mateus, presidente Associação de Moradores do Bairro de Aldoar, na zona ocidental do Porto. A reformada diz isto e logo o desdiz: “E se, com essa crise, acabam com o rendimento social de inserção [RSI]? De quê que esta gente vai viver?”

Há muito desocupado encostado às paredes limpas do bairro construído há 41 anos para alojar quem vivia nas barracas. “Não arranjam trabalho”, legenda Cecília Pinto, atrás do balcão do bar associativo, contas enegrecidas pelos fiados. A filha dela está com 20 anos e não vai além de umas horitas num infantário. “Tirou o 9.º ano. Fez um esforço, mas tirou-o, com a graça de Deus. Afinal, não sei para quê!”

Uma espécie de calvário é percorrido por quem não consegue entrar no mercado de trabalho ou dele sai e esgota subsídio de desemprego e subsídio social de desemprego sem conseguir reempregar-se. O RSI pode, então, surgir como única forma de atenuar a severidade da pobreza. Esmeralda Mateus não quer que se pense que a mais polémica prestação social é alguma fartuna: “Uma pessoa sozinha recebe 187 euros e isso para que dá? Onde estão as voltas de ouro que antes se viam ao pescoço? Foram vendidas ou estão no prego! Ainda bem que a canalha, agora, tem almocinho na escola! Todas as noites há gente a vasculhar os caixotes do lixo ao pé do supermercado!”

As notícias chegam pelo televisor incrustado na parede – sempre ligado na TVI: falam nas descidas do rating, nas turbulências na bolsa, nas pressões do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu, das medidas do Plano de Estabilidade Económica. Já nem as ouvem – é como se ali estivesse a professora do Charlie Brown a pronunciar frases incompreensíveis. Apesar de trazerem cortes no subsídio de desemprego, fiscalizações nas prestações sociais.

O tema deste momento é o tema de qualquer momento: sobreviver. E isso, agora, pode ser abalado com o aumento das rendas decretado pela câmara. Cecília pagava 32 euros por um T3 e passou a pagar 54. A crise dela é essa. Está nervosa, muito nervosa. Tem de pagar contas correntes de renda, luz, água e contas atrasadas de renda, luz, água. E, como ela, muitos vizinhos do bairro – alvo de recuperação no exterior e nas zonas comuns. Alegra-a o marido ter arranjado trabalho nas obras, em Espanha: “Uma pensão de invalidez de 200 euros que eu tenho! Ou pagava contas ou comprava comida! Não pagava, que os meus filhos têm de comer.” Mas não se sente segura: “Aquilo em Espanha também não está bom. A qualquer altura o podem mandar embora.”

Talvez a sua grande inquietação não seja, afinal, muito diferente da da classe média que com ela se cruza na freguesia. Diana Peres, engenheira civil de 25 anos, está preocupada com “a falta de emprego” e convencida de que “a verdade ainda não foi toda revelada”. José Fernando – fogueiro que a crise no têxtil atirou para a reforma antecipada – mata o tempo num minúsculo café comprado pelo filho, empregado no sector automóvel: “Se ele ficar desempregado, vem para aqui.”

Ana Cristina Pereira
Público
30/04/10

 

Via Meninos de ninguém



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