Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

 A pornografia não se discute, não se fala, é coisa de 'pervertidos'. Lamenta-se em público e vê-se em privado. Solitariamente. Desde as cassetes de vídeo beta aos últimos streamings online que assim é - para mencionar apenas os últimos 25 anos. Ora, os factos são estes: o porno já não é o desvio da norma e representa hoje valoresmainstream da cultura popular. Exagero? Basta ver o que se passa ao nível da net. São criados 266 sites de adultos a cada segundo. Há dois milhões de pessoas a registarem-se em sites porno a cada minuto. A maioria é vista no horário diurno. Nos EUA, os maiores consumidores de pornografia têm entre 12 e 17 anos. A geração masculina entre os 20/30 anos admite consumir regularmente e mesmo as mulheres já têm um subgénero orientado para o seu gosto visual. A banalização da cultura porno já começou há algum tempo - teorias feministas dizem que é o último santuário onde o homem é dominante - mas terá reflexos comportamentais nem que seja... na coreografia de cama. Deixemos agora o moralismo na mesa-de-cabeceira para tentar ver outros aspectos da questão.

Li há dias um artigo em que a autora - atónita - tinha descoberto ao ver um dos seus primeiros filme porno que o namorado se comportava na cama como um actor de uma grande produção do Valley. Temos assim essa possibilidade em aberto. A de que alguns dos comportamentos masculinos (logo, femininos) na cama sejam hoje predeterminados por uma performance coreográfica absorvida pelo visionamento de centenas de produções cinematográficas, com tecnicalidades impostas pela realização fílmica e incorporadas na sexualidade quotidiana como 'normais' e agora já erotizadas. Há uma formatação planetária do acto sexual pela pornografia - sendo que a mesma não é ditada por uma sexualidade realística. Isso de abrir mais uma perna para dar campo visual à lente quando se está no escurinho do quarto é capaz de não fazer sentido sem ser para o realizador.

Tanto mais que se a vida copia a pornografia, a pornografia copia a vida. Hoje a indústria está moribunda devido à pandemia do chamado 'porno Gonzo' - os clips amadores ou amadorísticos, grátis ou falsamente free, que inundaram a net e que criaram uma multiplicidade hiper-imaginativa de géneros que muitas vezes ultrapassam e banalizam os graus mais extremos de violência e crueldade - sem se perceber o grau de encenação.

A suspeita de que estamos a actuar na cama como actores porno foi-me confirmada pela leitura do recentíssimo livro de um dos grandes deste género, Adam Glasser, conhecido por Seymore Butts, intitulado "Rock Her World". Deixem-me ser gabarolas: eu já li muito manual de sexo! E este é sem dúvida o melhor, bate qualquer kama sutra rebuscado e poético. O senhor Butts é efectivamente um poço de saber, um encanto de pessoa, um conselheiro sensato, um cavalheiro e o irmão mais velho que sabe tudo, mas tudo o que nunca tivemos coragem de perguntar - ou por não termos um actor porno à mão ou por não nos ter ocorrido fazer tal pergunta.

E o objectivo do senhor Butts não é fazer do leitor um aprendiz de actor porno, au contraire... O actor reformado alerta que entre a encenação sincopada e cortada das cenas e o que se passa fora de plateau não há comparação. O que interessa é a vida 'cá fora'. Ora é a combinação de saber das suas centenas de aventuras sexuais 'reais' com a sua experiência profissional polvilhadas com relatos de histórias e que não fazem uma apologia de uma promiscuidade gratuita que tornam este manual num must. Muitos homens portugueses acham que isto do sexo não se aprende em livro: basta a prática (depois de ver porno). Uns serão tolos. Outros acabarão cornos. Palavra de Butts.

Via  Expresso



publicado por olhar para o mundo às 18:47 | link do post

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