Domingo, 22 de Novembro de 2009

 

Nos bastidores da pornografia, Viagra e gel....

 

9h30 da manhã. Pelos caminhos da Serra de Sintra, perdidos entre o nevoeiro que naquela sexta-feira cobriu praticamente toda a encosta, conseguimos finalmente encontrar a moradia. O portão está entreaberto, mas por pouco tempo. "Temos de ser discretos", avisa-nos um elemento da produção que nos aguardava, apesar de não haver praticamente vizinhança e da estrada estar deserta. Cá fora, no parque de estacionamento, vislumbramos alguns elementos da equipa, que preparam o pequeno-almoço na cozinha. Livrámo-nos do primeiro mito: não é com torradas, tostas-mistas e café que os actores garantem a performance, mas graças aos famosos comprimidos azuis e gel de potência masculina, cujas embalagens convivem harmoniosamente na banca da cozinha entre sacos de compras, paletes de leite e detergentes da loiça. O dia está a começar e adivinha-se longo. "Rápido, temos uma agenda a cumprir", grita o realizador Max Cortez. "Onde andam as mulheres?"


A esta hora, Carla Cox e Daria Glower, duas celebridades porno da República Checa, ainda estão no andar de cima. Dão os últimos retoques na maquilhagem, uma na casa de banho, outra no quarto. Facilmente se percebe que estamos numa casa habitualmente desabitada. As paredes estão despidas, os móveis também, e no chão acumulam-se peças de roupa e sapatos - de saltos vertiginosos, claro. Embora ali o sexo seja sobretudo um negócio, três das seis suites da casa estão ocupadas por outros tantos actores (três mulheres e três homens), divididos por casais. Essa parte da casa, no entanto, não é permitida fotografar: "é a nossa vida privada", dizem. 

Cá em baixo, na sala onde vão decorrer as filmagens, as duas actrizes checas são aguardadas pelo realizador, um produtor e dois assistentes, que vão deitando o olho ao plano de trabalhos. O cenário da produção é uma moradia de luxo em Sintra, arrendada à semana por mais de mil euros. Tem piscina, campo de vólei e uma vista privilegiada sobre a serra. É ali que a equipa vive durante o tempo de rodagem daquele que será um dos primeiros filmes pornográficos não amadores feito em Portugal. Durante o dia, o ritmo de trabalho é alucinante: ao todo, a película inclui 35 cenas, feitas em dez dias. À noite, o merecido descanso: enquanto uns se divertem a jogar cartas Uno, outros vêem televisão - e há quem se distraia com uma revista cor-de-rosa ou com um livro. 

Entre cenas O frio da rua contrasta com o ar abafado que se respira na sala do piso térreo da casa, onde é filmada a primeira cena do dia. Que o diga Carla Cox e a sua compatriota Daria Glower, expostas ao calor dos dois projectores que incidem directamente sobre elas. Sempre que o realizador corta a cena, as duas apressam-se a sair do set e a sacar de lenços de papel para limpar o suor e engolir uma bebida energética de cor azul. Mais tarde, os lenços seriam utilizados para eliminar os vestígios deixados por Marcel, o protagonista da primeira cena com as duas mulheres. 

Não há qualquer guião ou diálogo. A velha fórmula retro-porno do canalizador que visita a senhora em apuros domésticos já só entra no imaginário dos tempos da revista "Gina" e da era pré-internet. Hoje, explica Max Cortez, "as cenas são feitas para a internet. E não passa disso, de uma cena de sexo. Acho que o filme com principio meio e fim, com argumento, teve o seu momento. Actualmente, não faz sentido fazer uma aproximação ao cinema convencional, nem é viável". É por isso que o realizador recusa chamar 'cinema' a um filme porno. "Porno é porno, nada mais." 

Antes da cena começar, Max dá breves indicações às duas actrizes. Nada que ambas não dispensassem: Carla tem 25 anos e mais de cinquenta filmes no currículo, Daria é mais velha e experiente: 28 anos e quase 100 películas. São elas que abrem o plano e fazem uma espécie de introdução, enquanto Marcel aguarda num canto a sua entrada em cena. Só o fará quando o realizador ordenar, mas até lá convém manter a "postura".

Enquanto isso, sentados numa mesa fora do enquadramento, o produtor e dois assistentes vão trabalhando ao computador. Trocam mails, vêem cenas gravadas nos dias anteriores, actualizam páginas da net, praticamente indiferentes ao que se desenrola a menos de cinco metros de distância. Apesar do calor da cena e da banda sonora de gemidos que a acompanha, facilmente se percebe que se trata de encenação. "É tudo fingido", explica o produtor Carlos Ferreira. "Quando o realizador manda cortar, fica tudo quieto, como se nada fosse." Mas sempre que a luz vermelha da câmara está acesa, Carla e Daria fazem permanentes investidas de sedução à objectiva, orientadas pelos sinais do realizador para mudarem de posição. A entrada em cena de Marcel não carece de qualquer tipo de introdução ou diálogo: pura e simplesmente aparece. Primeiro vestido, três minutos depois apenas de gravata agarrada ao pescoço. 

A cena é olhada de perto pelos outros actores que se vão acotovelando à porta da sala e trocando segredos. Há quem tenha acabado de saltar da cama, olheiras imponentes nos olhos e fato de treino vestido. Um dos actores, Steve, olha-nos de soslaio na cozinha e confessa-se "cansado". Está ali enfiado há cinco dias, a viver uma espécie de Big Brother pornográfico. Pouco depois daquela curta conversa, preparar-se-ia para filmar mais uma cena - e perceberíamos finalmente o que ele queria dizer com o sentir-se "cansado". Nada que não se resolvesse. 

Quando a cena do trio chega finalmente ao fim, passa-se à fase das fotografias. O DVD, explica Carlos Ferreira, "inclui imagens de cada um dos shots". Daí que seja necessário recuperar as posições filmadas. "Ou então estamos sempre a interromper", atalha Max Cortez. Não foi o caso: a cena foi feita ao primeiro take e sem cortes. O momento alto, comenta um dos assistentes de realização, é o "cum shot". Ou seja, quando o actor atinge o clímax. E é aqui que a rodagem de um filme pornográfico assume contornos surreais: à ordem para cortar, segue-se a intervenção imediata do fotógrafo de serviço, que desata a disparar flashadas sobre o trio. Depois, encenam cada uma das posições para a fotografia, entre os risos delas e a evidente dificuldade e inibição do actor em dar seguimento ao trabalho.

Filme interactivo Em menos de um mês, parte desta equipa veio a Portugal duas vezes. Primeiro para o Salão Erótico de Lisboa, agora para realizarem esta produção portuguesa, que de português tem apenas a empresa que a patrocina. A Hotgold é a proprietária do primeiro canal nacional para adultos (disponível para assinatura mensal numa das operadoras de televisão por cabo). O facto de o elenco ser todo estrangeiro - duas mulheres e dois homens da República Checa, um alemão, um espanhol e uma colombiana - tem a ver com questões orçamentais. "Fica mais barato", garante o produtor português, Carlos Ferreira. Além disso, "é bastante mais complicado contratar actrizes portuguesas".

A equipa técnica incluiu, no entanto, dois elementos portugueses, responsáveis pela filmagem. "Temos uma equipa portuguesa, que está aqui a fazer uma espécie de estágio para as nossas produções futuras." O resultado dos dez dias em Sintra será um filme "interactivo" que chega às sex-shops em Janeiro de 2010. Interactivo? "Sim, será possível escolher os intervenientes e os cenários".



publicado por olhar para o mundo às 19:21 | link do post

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